Nem sempre é fácil simplificar as coisas. E nem sempre é necessário simplificar. O medo contemporâneo de se estar fora da moda relativista-pluralista e do seu consequente politicamente correto resulta, quase sempre, numa tendência de simplificar ou mascarar dilemas que são terrivelmente ofensivos a nós humanos, porque afetam aquela ferida supostamente incurável do “eu”.

Ernst Becker, em seu excelente “A negação da morte”, afirma pelo menos duas graves consequências de tentarmos simplificar os dilemas humanos. O primeiro é que, quase sempre, pensando em tornar as coisas mais simples, nós criamos grandes mentiras. Geralmente, por não sermos capazes de explicar coerentemente o que de fato não sabemos, inventamos alternativas paliativas que, supostamente, trazem respostas satisfatórias e acalmam nossa inquietude existencial. Frequentemente, quanto menos consistente é a mentira que você sustenta, tanto maior será a sua revolta com o mundo. Essas mentiras são apenas racionalizações criadas para facilitar as desculpas de que você precisa para viver.

A segunda consequência é que a simplificação dos dilemas humanos causa o retardamento do descobrimento das verdades capazes de nos ajudar a sair da escuridão e fornecer alguma compreensão para seguirmos adiante. Quanto mais permanecemos presos a mentiras fabricadas em nossas mentes, por supostamente resolverem as principais tensões da vida, mais tempo desperdiçaremos na busca pela verdade. O desejo ardente de obter respostas rápidas nos reduz a simplórios que se contentam com argumentos inconsistentes.

Com a sua costumeira perspicácia, C. S. Lewis, ao defender a existência de valores universais e perenes, destacou que “o mais extraordinário é que, sempre quando encontramos um homem a afirmar que não acredita na existência do certo e do errado, vemos logo em seguida este mesmo homem mudar de opinião... um país pode dizer que os tratados de nada valem; porém, no momento seguinte, porá sua causa a perder afirmando que o tratado específico que pretende romper não é um tratado justo”.

De fato, os dilemas da vida não são simples. Eles exigem compreensão de aspectos profundos e múltiplos que minimamente conseguimos explicar. Mas a nossa soberba, fruto de nossa síndrome de heroísmo, motivada pelo narcisismo humanista, nos transforma em seres demasiadamente simplórios. Julgamos saber e dominar as ideias. Todavia, não somos capazes de superar o medo da morte. Louvamos a ciência como mestra de todo o saber, mas nos surpreendemos quando ela não nos liberta de nossos terrores noturnos. Evocamos deuses, mas nos frustramos quando eles não nos dão as certezas de que precisamos. Fabricamos todos os tipos de ídolos, na tentativa de acalentar os nossos sombrios corações, mas nos tornamos como eles, mancos, carentes de suportes que não cambaleiem, sob o risco de desmoronarmos e sermos despedaçados.

Não tenha medo de lidar com os dilemas complexos e aparentemente insolúveis da vida. Fugir disso pode custar a você sua própria paz e a sua dignidade. Deixar de buscar as respostas certas para as difíceis ambiguidades pode torná-lo refém de mentiras ou afastá-lo da verdade. Não se iluda. Hamlet tinha razão: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.