Tragédias no Brasil são quase sempre pré-anunciadas. É como se pertencessem e integrassem a política de cotas. Sim, há cotas também para o barro e a lama. Cota para a dor. O paradoxo do binarismo ação e omissão. Bem e mal. Dezembro e janeiro. Chuva e desabamento. Sei e não faço nada se repete na simbologia social e cultural que camufla as responsabilidades.

Paira no ar uma elevada dose de omissão. Quando a barragem de Mariana se rompeu, em 2015, não era a intuição das pessoas que dizia que ela ia se romper. Era a técnica. A ciência. No caso, a engenharia já havia apontado para a amplitude do risco. Infelizmente, o mesmo aconteceu agora. No último dia 8, o dique da Mina de Pau Branco, que fica em Nova Lima, transbordou, inundando a BR- 040, causando danos irreparáveis à população. Mortes. No mesmo dia, o desabamento de pedras no lago de Furnas, em Capitólio, provocou a dor e a morte de dez pessoas e mais de 30 ficaram feridas. Mais mortes.

A tragédia ocorrida em Capitólio e a mineração desmedida que ocorre em Minas decorrem de uma tendência, verdadeira pulsão conhecida: a destruição do homem pelo próprio homem, que atua, pelo menos em tese, com falta de cuidado com o próximo. Bem Maquiavel? Cabe-nos responder.

Minas Gerais tem lutado com uma absurda capacidade de resiliência para contornar esses malfeitos. Faz-se o dobro de esforço para conseguir pela metade a vida, o sono e a paz. Mas esforços não são suficientes depois que a morte operou, em razão das chuvas de janeiro. Não se pode dar um alvará para os fatos ocorridos, como se pertencessem somente à natureza. Licenciar a tragédia opera para muito além da vontade natural. Há aqui a marca identitária da culpa, quem sabe dolo do homem e não do natural.

A adesão das comunidades ao sofrimento e os esforços unidos de reparação são uma associação que revela explicitamente que, muito embora o homem possa ser o lobo do homem, também pode ser, primariamente, seu salvador. Vários testemunhos indicam a determinação e protagonismo na acolhida das vítimas.

Fica claro que a chuva não é a única culpada – as tragédias, ditas ambientais, se repetem. E essa operação sequencial se repetirá até que o homem freie o próprio homem. É somente a partir dessa nova pulsão – que não nasceu ainda – que poderemos dormir, com menos medo da lama e das pedras. 

*Advogada, pesquisadora, professora universitária, escritora