Estou eu deitada na rede da varanda de uma casa alugada para temporada na Ilha do Desejo, no município de Una, a 32 quilômetros de Ilhéus, na Bahia. Em roupa de banho, de vez em quando olho o verde mar a poucos metros de mim, enquanto leio um livro de Lima Barreto. Encanta-me a visão única e desgarrada do seu privilegiado cérebro, há 120 anos, que poderia ser hoje motivo de conversa.

Então, os meninos passam. Um deles vai à frente com uma pequena caixa de isopor, dependurada no ombro. Observo-lhes a ida, e reparo neles na volta, logo depois. Tratando-se de uma ilha semideserta, não é de se esperar que tenham tantos fregueses, mesmo na alta temporada. Ainda de manhã, o sol forte castiga quem precisa trabalhar. São duas crianças de pele morena clara. O cabelo deles é algo crespo e alourado, o que chamamos de sarará. O mais velho me pergunta se quero comprar brigadeiro. Digo-lhe que não. Ele já esperava pela minha negativa. Calça chinelos de borracha, usa short e camiseta branca de mangas compridas. Eu lhe faço uma afirmativa e uma pergunta: Mas você é muito novo para trabalhar. Quantos anos você tem? Nove. Deveria trabalhar apenas depois dos 14 anos. Você mora aqui na ilha? Não. Em Acuípe. Eu pergunto: Fica onde? É indo na direção de Una. E eu: São quantos minutos a pé? Ele não sabe, ainda que bem falante. Olhando seu auxiliar, digo: É seu irmão? Sim, é, tem 7 anos. Falo ser ele pequeno para o trabalho!

São sete irmãos. A mais velha, Beatriz, de 14 anos, faz doce para eles venderem. A mãe trabalha cozinhando e arrumando casas pela estrada afora. O pai faz bicos. Limpa alguma coisa também. Curiosa, pergunto-lhe os nomes dos outros irmãos: Bernardo, Iago, Ícaro, Ítalo, Yuri (o entrevistado), e faz questão de me dizer que o nome dele se escreve com y e não com i como o dos irmãos. Iara, a mais nova, tem 5 anos. As aulas do menino começarão no dia 10 de fevereiro. Afirma ser bom nas contas, assim, fazer o troco o ajuda na escola. Falo da dificuldade em criar tantos meninos, e quando pergunto e ele não sabe me responder o motivo de os pais terem tido sete filhos, educado se despede e vai embora. Menino bonito, inteligente e sem privilégios. Não ter regalias é o retrato do nosso Brasil.