Bulverismo foi um neologismo criado por C. S. Lewis, em 1941, para designar o método moderno usado por alguns para definir se o argumento do outro é válido ou não a partir de condições psicológicas individuais em vez de fundamentos lógicos universais. O criador dessa ideia foi a personagem imaginária de Lewis, Ezekiel Bulver, que, ao presenciar uma discussão entre seus pais, admitiu que a refutação não é uma parte necessária do argumento e que devemos fingir que o nosso oponente está errado, tentar explicar o erro dele e, então, teremos o mundo a nossos pés. Mas, ao contrário, se você tentar provar que o seu oponente está errado ou se tentar descobrir que ele está certo ou errado, todos se voltarão contra você.

A principal tática do bulverista é mostrar por que a pessoa está errada ao defender certa ideia antes mesmo de explicar que essa pessoa está errada. Ela se concentra nas causas e não nas razões. O interlocutor assume precocemente que o seu oponente está errado simplesmente por supor que as condições psicológicas são a causa dos argumentos que ele defende, não por examinar criteriosamente suas razões.

O interlocutor desvia a atenção do seu oponente daquilo que é de fato necessário – a questão real – por meio de um interminável jogo de símbolos ideológicos e palavras sem sentido que adquirem peso de saber, mesmo não valendo um balão vazio.

Uma discussão acontece entre duas pessoas com pensamentos religiosos distintos. De um lado, a acusação contra o cristianismo e os cristãos é porque “os pastores só querem explorar as pessoas e tirar o dinheiro delas”. Se o indivíduo defende que a pena de morte é necessária por atender ao princípio da retribuição – vida por vida – e por ser um importante freio na criminalidade, há quem o defina como fascista. Se alguém clama por uma distribuição mais igualitária da renda, haverá sempre os que o acusarão de socialismo. Para uns, os capitalistas são péssimos economistas, porque pensam em enriquecer a si mesmos ou a grupos privilegiados; para outros, os socialistas também são péssimos economistas, porque supostamente se interessam pelo coletivo, mas à custa de retirada de bens privados. Ou seja: a questão não é o argumento anterior que subsidia a escolha de um ou outro lado, mas a causa de alguém ser ou não o que ele escolhe ser.

A questão toda está no princípio bulverista: tentar mostrar que o outro tem causas por que defende certa ideia e não razões justificadas por argumentos. Mas essas pessoas se esquecem de que ao tentarem evidenciar por que os outros estão errados sem raciocinar as razões justificadas a partir de um terreno argumentativo sólido, elas próprias se mostram sem valor. Denunciar ideias julgando o porquê as pessoas fazem isso ou aquilo, se elas estão certas ou erradas, não serve para construir bons argumentos. É como quando cortamos o galho no qual estamos assentados.

Se você julga o outro por supor que ele seja assim ou assado, mas sem considerar a base de seu argumento, você se entrega a jogo democrático da mediocridade e se põe na condição de ser julgado. Seu galho também está sendo cortado e brevemente você cairá. 

O conhecimento real só será possível quando o bulverismo for abandonado e quando o raciocínio permitir um pensamento genuinamente sólido, sem julgamentos precoces e sem preconceitos de causas. As razões são fundamentais; as causas, secundárias.