Começa em fevereiro e termina em novembro, nove meses de preparativos, para, então, como num parto, vir a lume. Assim, de passo a passo, a bailarina, professora, coreógrafa, diretora, figurinista e psicóloga motivacional Elisa Pires, do Pátio Flamenco, vai criando a coreografia de cada turma para o Festival Flamenco de Montes Claros, em sua quarta edição. Este ano sua cidade natal foi homenageada, quando, com originalidade ímpar, montou um espetáculo mesclando músicas montes-clarenses consagradas, com os tradicionais ritmos espanhóis. A costura foi feita na montagem do festival “Flamenco en los Montes”, com inserção de “Eu vou de trem pra Montes Claros”, “Amo-te muito”, “Montes Claros Vovó centenária”, “Montesclareou” que arrancou arrepios e lágrimas.

Além do corpo de baile Companhia Pátio Flamenco, que há dois anos treina assiduamente e do qual se destacaram bons dançarinos, os alunos têm aulas semanais, aprendendo as pisadas duras e suaves dos sapateados, e os volteios ora firmes, ora delicados das mãos, crescendo até chegar o festival. São pessoas comprometidas com o árduo aprendizado.

As aulas são dadas em frente ao espelho, onde vemos a execução frente e verso da professora, em câmera lenta, e, depois, a nossa, quadro a quadro, para combater o temor. Os passos são complexos e o mais difícil é acompanhar o ritmo da música, também criada a cada aula. Podem-se saber os passos e sua sequência e se perder na execução, tal é a dificuldade em se dançar Flamenco. Quando é tirado o espelho, perde-se a metade do cérebro.

Em todo o primeiro semestre, se avança na criação da música e da coreografia. Depois se dá a definição do figurino e a finalização dos passos. Então, é buscar aprimorar cada um deles. Pouco a pouco o aluno vai se soltando, destravando-se, e dançar passa a ser natural. Os mais contidos podem escolher a fuga ou aceitar o desafio de dançar. Após três festivais vistos da platéia, mesmo sabendo executar a coreografia, desta vez, me encantei com o ritmo tarantos e decidi subir ao palco. Ainda com gestos tímidos, nós, as sete maduras aprendizes, sob a luz ofuscante da maravilhosa Elisa Pires, que dançou conosco, posso dizer que participamos do festival. Sim, eu também estava lá.