Escrever é um dos maiores desafios da vida humana. Torna-se mais humano quem escreve, porque escrever é transpor para palavras ideias e sentimentos. É traduzir fatos a partir de um olhar relativizado. Se, nas palavras de Noam Chomsky, “a linguagem é a roupagem do pensamento”, a escrita é o seu adereço mais valioso. A oralidade é sublime, porque nela expressamos gestos, entonações, posturas; mas, na escrita, plantamos palavras, a fim de que as imagens colhidas delas possam ser nutridas na mente de nossos leitores como árvores frutíferas. A oralidade é fugaz; a escrita, permanente, ensina-nos o ditado latino.

Escrever é construir imagens. Em um texto poético, essas imagens podem levar a outros mundos, nem sempre tão claros e visíveis, porque é disso que a poesia é feita. Como expressou Manoel de Barros, “Escrever nem uma coisa nem outra – a fim de dizer todas – ou, pelo menos, nenhumas”. O poeta pode tentar dizer tudo em poucas palavras, a fim de criar suas imagens mais geniais.

Em um texto dissertativo, acadêmico, jornalístico, ao contrário, a precisão e a clareza são essenciais. Não há espaço para “achismos”. Devem-se evitar, ao máximo, ideias que sejam muito subjetivas. Adjetivos e advérbios, que transmitem juízos de valor e circunstâncias, devem ser usados com parcimônia. 

Por exemplo: se você escreve “O ilustre filósofo francês Jean-Paul Sartre...”, o adjetivo “ilustre”, que emite sua própria opinião sobre o referido filósofo, pode não ser compartilhado por outro acadêmico. Talvez ele não considere Sartre tão ilustre assim. Então, prefira “O filósofo francês Jean-Paul Sartre...”. O texto será mais objetivo e menos tendencioso.

Ser tendencioso é um dos pecados da escrita atual, que pretende emitir juízos de valor sobre fatos. Como afirmou o filósofo Mário Ferreira dos Santos, “devemos evitar cair no verbalismo, que consiste no emprego exagerado de palavras, sem conteúdo preciso”. 

A causa mais comum de não se ter conteúdo preciso é abstrair (do latim abs trahere: trazer para o lado) exageradamente os fatos. Tangenciamos demais. Trazemos muito para o lado os fatos. Afirmamos “esta cadeira azul é fascista” sem sabermos o que de fato significa o adjetivo. Estamos diante de juízos que carecem de maior precisão, porque abstraímos do fato para a criação de um conceito, que habita o mundo da linguagem, e ela é fluida. Como alertou Mário Ferreira dos Santos, “não se deve confundir o conceito com seu enunciado verbal, também não se deve confundi-lo com o fato”.

Escrever nos ajuda a ver o mundo com palavras. E as palavras nos levam a habitar o mundo. Por isso, é preciso ser cuidadoso com as palavras. Elas podem ser traiçoeiras e matar. 

Por isso o Cristo ensinou que o “não matarás” não é apenas derramar o sangue, mas também o insulto, a injúria e a difamação: “quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mateus 5.22). 

Precisamos ser honestos com os fatos, cuidadosos com as palavras e eticamente comprometidos com os conceitos que empregamos e defendemos.