O que aumenta a persuasão não é a força com que se fala, mas as palavras agradáveis e ditas ao seu tempo. Semear discórdias e contendas é prática comum aos perversos, porque a perversidade repousa exatamente no desejo insano de vencer uma disputa a partir de divisões, exclusões, manipulações e injustiças

Em tempos de polarizações ideológicas e disputas por reconhecimentos, o bom senso é expulso da sala de debates, sob o argumento de que os assentos reservados para ele precisaram ser ocupados por fatos novos que precisam ser considerados. O elogio à razão é obviamente traído pela adrenalina passional cada vez mais acentuada. A sobriedade dá lugar à exasperação e à hostilidade com a desculpa de que em certas ocasiões é preciso ser mais incisivo.

No entanto, poucos sabem que “o bom senso é fonte de vida para aqueles que o possuem, mas a tolice é a punição para os insensatos” (Provérbios 16.22). O que aumenta a persuasão não é a força com que se fala, mas as palavras agradáveis e ditas ao seu tempo. Semear discórdias e contendas é prática comum aos perversos, porque a perversidade repousa exatamente no desejo insano de vencer uma disputa a partir de divisões, exclusões, manipulações e injustiças. É mais fácil distorcer a verdade do que mantê-la.

Sustentar a verdade exige compromisso com princípios; manipulá-la, não. Para manipular a verdade, exige-se apenas compromisso consigo mesmo e com sua ideologia. Este é um dos perigos das ideologias: transformar o proponente dela em seu escravo. Em outras palavras, a pessoa se torna semelhante ao seu ídolo, defendido na ideologia. Mas há pessoas que insistem em propagar ideologias em vez de refletir sobre os fundamentos delas em busca dos princípios. Esses são universais; aquelas são temporárias e aplicáveis, quase sempre, a pequenos grupos individuais que pensam, soberbamente, que são donos da verdade.

Por isso o bom senso deve ser trazido para assentar-se à mesa. Ele equilibra as coisas, torna as pessoas menos passionais e menos crentes em si mesmas. O bom senso nos faz duvidar de que a nossa razão é de fato suficiente para dirimir e pronunciar sobre as demandas mais soberanas de nossa vida. O bom senso tem às vezes mais razão do que a própria razão. Afinal, “o bom senso leva a pessoa a controlar a sua ira; a sua glória é perdoar as ofensas” (Provérbios 19.11). Além disso, “o bom senso conquista favor, mas o caminho dos infiéis é intransitável” (Provérbios 13.15).

Os “infiéis” pensam que sua razão os salvará. Eles têm a certeza de que suas ideologias serão suficientes para sustentá-los nos momentos mais críticos de sua existência. Todavia, não é assim que acontece. Quase sempre, os ideólogos mais ferozes são aqueles que mais carecem de respostas ao final de suas vidas, porque seus ídolos nunca são capazes de dar a eles respostas adequadas e suficientes para suas crises. Ideologias não salvam, mas “o bom senso o guardará, e o discernimento o protegerá” (Provérbios 2.11).

Portanto, “não esgote suas forças tentando ficar rico; tenha bom senso” (Provérbios 9.4). Os “infiéis”, contudo, preferem a riqueza de bens à riqueza de senso. Eles são mais afeitos às coisas materiais do que àquelas que permanecem. Princípios não valem para eles tanto quanto as crenças ideológicas que sustentam. Eles acreditam de verdade que as ideologias os salvarão de seus problemas mais profundos. Enganam-se, pois “o que lavra a sua terra será farto de pão, mas o que corre atrás de coisas vãs é falto de senso” (Provérbios 12.11).