Uma das preocupações do início de ano é quanto à educação dos filhos. Escolher boas escolas e um bom ensino parece ser um dos alvos principais dos pais dedicados nesse período do ano. Por isso, gostaria de traçar algumas considerações quanto a esse tema, a partir da perspectiva dos reformadores do século 16 e seus sucessores.

Os reformadores entendiam que a educação deve ser para todos, indistintamente. Mas não apenas uma educação qualquer, mas a educação cristã, a educação que, de fato, é capaz de transformar pessoas, aquela que conduz o homem a Deus, a única razão de sua real existência. Não se trata de um modelo de educação produzido por algum pedagogo, mas uma educação originada das Escrituras Sagradas, a partir de uma interpretação fiel do texto bíblico. Uma boa teologia produzirá uma boa educação.

Nesse sentido, John Milton definiu a educação: “O objetivo da aprendizagem é corrigir as ruínas de nossos primeiros pais, recuperando o conhecer a Deus corretamente, e a partir deste conhecimento, amá-lo, imitá-lo e ser como ele, do modo mais aproximado possível, tornando nossas almas possuidoras de verdadeira virtude que, unida à graça celestial da fé, constrói a mais alta perfeição. Chamo de uma educação completa e generosa aquela que capacita um homem para atuar justamente, habilidosamente, magnanimamente, em todos os ofícios, tanto privados como públicos, de paz e de guerra”.

Portanto, para os reformados, a educação só tem sentido quando praticada com o foco no aprendizado que conduz o homem a contemplar Deus e toda a obra de sua criação. Por isso, para os reformadores, a interpretação correta da realidade, que se dá a partir da correta interpretação da Bíblia, chamada de Escritura Sagrada, é a única forma de corrigir o homem de seus erros e colocá-lo de volta ao caminho que conduz à vida.

Todo e qualquer conhecimento deve nos conduzir a Deus e à contemplação de sua criação. Por isso, a ciência deve agir para a glória de Deus. O cientista não é um descobridor autônomo, mas um servo de Deus que se coloca a serviço do Criador do Universo e se prepara para conhecer aquilo que lhe é revelado.

Abraham Kuyper (2002:133) defendeu, por exemplo, que a ciência pode exercer sua liberdade dentro da compreensão de que ela é limitada pelo próprio ser de Deus, criador e sustentador de todas as coisas. Ao compreender seu domínio, a ciência caminha livremente a fim de colaborar com a revelação de Deus para a humanidade. O cientista, portanto, é um divulgador das obras da criação, um perscrutador da natureza, a fim de revelar aos demais as belezas criativas de Deus. A ciência não cria, ela descobre. Ela procura entender aquilo que por Deus deseja ser revelado.

Uma cosmovisão cristã (ou podemos denominar também teorreferência), portanto, é uma maneira de ver o mundo – biblicamente orientada – em relação a todas as estruturas sociais, culturais, econômicas, científicas, religiosas etc. Segundo Nancy Pearcey (2006:37), “pensar cristãmente significa compreender que o cristianismo tem a verdade sobre o todo da realidade, uma perspectiva para interpretar todos os assuntos da vida”.

Portanto, negar a religiosidade de nossos compromissos sociais e culturais é negar a nós mesmos, a nossa origem e nosso propósito. Como afirmou Christopher Dawson, “parece-me óbvio que o conceito de educação é religioso, a despeito de seu secularismo. Ele é inspirado pela fé na democracia e pela ‘mística’ democrática que, em espírito, é mais religiosa que política”. E ainda complementa: “Palavras como ‘comunidade’, ‘progresso’, ‘vida’ e ‘juventude’ etc, mas, sobretudo ‘democracia’, adquiriram uma espécie de caráter numinoso que lhes dá poder emocional ou evocativo e as coloca acima da crítica racional”.

Pais que amam seus filhos se preocupam com a educação que é oferecida aos seus filhos. Eles entendem que glorificar a Deus e usufruir de seus benefícios em todas as áreas da vida é a tese principal do cristão reformado. Todo verdadeiro reformado entende que a vida não pode ser fragmentada e, por isso, a educação que meus filhos recebem tem implicação direta com todo o restante de sua vida. Cada centímetro de nossa existência pertence a Deus e, por isso, todas as áreas devem se submeter ao governo do Senhor, incluindo, obviamente, a educação.