Parece normal conviver com uma sumidade, um extrapolador contumaz das funções que inventou exercer, que, habituados, festejamos pouco a sua companhia. Mas o reconhecimento da sua valiosa produção vem célere pelo merecimento. Petrônio Braz não saiu da Academia Montes-clarense de Letras, a cadeira 25 – patrono Padre Augusto –, para que eu, após votação, pudesse ocupá-la, mas, como foi meu antecessor, escrevi sua biografia, citando feitos políticos, jurídicos, históricos e literários. A imortalidade das academias de letras e o termo imortal se dão porque, a cada vacância, nos discursos de posse, todos aqueles que já ocuparam a cadeira são lembrados.

Nascido em São Francisco, em 12 de novembro de 1928, Petrônio Braz fez curso de agrimensor em Alfenas e de direito em Brasília. Exerceu mandato de vereador e prefeito em São Francisco e teve 11 filhos em dois casamentos.

A sua lista de livros, 21 – sendo 13 jurídicos e oito literários –, assim como seus títulos e suas homenagens são grandes e importantes. Inquieto e ativo, completando 91 anos, no momento trabalha em quatro livros: Caleidoscópio, Léxico dos Gerais, Nas Asas do Tempo e Amelina Chaves – Uma Biografia. Não citarei suas mais de 40 valiosas homenagens.

Seu livro “Serrano de Pilão Arcado: a saga de Antônio Dó” (2006), que fez parte do vestibular da Unimontes, na segunda edição é um épico que deve virar filme. Conta sobre Antônio Dó e sua vida heroica, uma luta pela terra, baseada em memória oral e documental, romanceada, aproximando-se da realidade construída quadro a quadro pela veia investigativa de Petrônio Braz. A terra é protagonista, mas as águas do rio São Francisco também têm forte papel.

Fiz o prefácio de “Jandaia em tempo de seca” em sua 4ª versão (2017). Ali reclamei da ausência de uma personagem feminina forte. Para breve, teremos uma surpresa. No baú de Petrônio, a toda hora surgem boas ideias. Diz preferir livros longos, em lugar de obras menores. Tem muito a dizer, e seus pontos de vista são consubstanciados em boas análises.

Petrônio Braz é um intelectual presente e de boa produção. Em breve lançará o seu “Léxico dos Gerais”, uma obra de vulto e de peso, além de muito original. Serão mais de 500 páginas, incluindo trovas, ditados, palavras e expressões do Norte de Minas e região do entorno. Li a parte referente às expressões populares, num desfile engraçado de frases e de pessoas. A cada expressão, algum personagem da vida de quem lê vai tomando corpo. E ele, surpreso, descobre que as usa mais do que poderia imaginar. Essa revelação se dá graças à perspicácia de Petrônio Braz.

O autor escreveu sobre seu Léxico: “é uma contribuição dialetológica limitada às variações idiomáticas relacionadas aos fatores sociais e geográficos. O sertanejo, na prática discursiva, imune à moléstia gramatical, utiliza-se de um conjunto de palavras e expressões que constituem o seu repertório léxico e que particularizam o Sertão”. Veja um exemplo: Pôr as cartas na mesa – ir direto aos fatos. É informação de fonte gabaritada e fidedigna, de quem não se furta a pesquisar. Suas obras são alimentos intelectuais, o que torna Petrônio Braz um escritor completo.

*Médica e jornalista