A palavra se constitui não somente meio necessário para a compreensão do mundo, mas ela própria é o mundo, na medida em que todas as significações proposicionais e prescritivas da realidade só se realizam na palavra e pela palavra. A palavra é o princípio da criação de todas as coisas, pois ela própria não só faz representar as coisas, nomeando-as, mas seu poder simbólico transcende a materialidade imanente e ultrapassa as barreiras do concreto, penetrando, sorrateiramente, as frestas mais singelas da vida.

A palavra poética não é divina em si, mas carrega um traço singular da divindade, a infinitização das coisas, pois traz consigo o acesso ao infinito por meio da imaginação. Como afirmou Sören A. Kierkegaard, “geralmente a imaginação é agente de infinitização. (...) Aquilo que há de sentimento, conhecimento e vontade no homem depende, de certa forma, do poder da sua imaginação, ou seja, da maneira segundo a qual todas as faculdades se refletem: projetando-se na imaginação. Ela é a reflexão que cria o infinito. (...) Geralmente é o imaginário que transporta o homem ao infinito, mas se afastando apenas de si mesmo e desviando-se dessa maneira de regressar a si mesmo” (KIERKEGAARD, Sören. O Desespero Humano. São Paulo: Martin Claret, 2003. p.34). 

Por isso, é possível estabelecer uma aproximação entre a vida e a escrita. É que o viver, assim como o escrever, funda-se numa constelação de possibilidades, onde há muitos espaços vazios que se vão preenchendo à medida que se vive. Na escrita, os espaços não preenchidos são sempre lacunas onde os diversos discursos podem ser inseridos. E essa inserção discursiva se dá a partir do momento no qual a palavra polissêmica fornece um espaço vazio onde a dúvida do sujeito se instaura.

Na vida, fato semelhante acontece. As dúvidas que se estabelecem na construção da existência é que dão ao homem a condição suficiente de caminhar naquilo que considera essencial para ser. Por essa construção da existência entende-se o processo de conhecer no qual o ser humano é submetido ao longo de sua vida. Ele é constantemente levado à situação de ignorância para ser trazido novamente a um estágio de possíveis respostas, onde suas tensões, antes obnubiladas, agora se acham um pouco menos opacas. 

Na escrita, assim como na vida, há espaços de tensões que somente o leitor arguto consegue perceber. E quando se percebe, descobre-se. É uma espécie de revelação progressiva em que os elementos constitutivos do discurso vão sendo abertos pelo desejo de saber e de obter as respostas. 

A palavra é o meio de ser, de se constituir como sujeito, mas também de nos limitar, pois ela é ambígua, fazendo-nos seus senhores e escravos, à medida que não temos sobre ela o controle pleno. Neste sentido, G. Gusdorf afirmou que “a linguagem não nos mantém na clausura do ser, mas não nos deixa toda a liberdade. A palavra não é nem o ser nem sua ausência, mas um compromisso da pessoa entre as coisas e as pessoas” (GUSDORF, Georges. A Palavra – Função, comunicação, expressão. Lisboa: Edições 70. p.34). 

A expressão é o sair de si mesmo e habitar entre os homens, a saída da passividade e a decisão de ser. O sair de si para dar a palavra é o momento mais sublime do homem, no qual ele se constitui humano e toma consciência de sua existência e de sua interferência no mundo e na realidade das coisas e pessoas.