O otimista e o pessimista são dois irmãos gêmeos. Um olha para o outro a partir de sua própria perspectiva, quase sempre equivocada. O otimismo e o pessimismo são duas faces de uma mesma moeda, cuja premissa é sempre uma questão de ótica, de vermos o que desejamos ver e não vermos o que não queremos ver. Ser otimista ou pessimista é uma escolha, portanto, que interfere radicalmente no modo como nos vemos e lidamos com as pessoas e situações.

No Sermão do Monte, transcrito pelo evangelista Mateus, Jesus Cristo ensinou algo muito pertinente sobre o otimismo e o pessimismo. Ele disse: “Os olhos são a lâmpada do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz; se, porém, os seus olhos forem maus, todo o seu corpo estará em trevas. Portanto, se a luz que existe em você são trevas, que grandes trevas serão!” (Mateus 6.22-23). 

É curioso observar que a referência de Jesus ao estado de otimismo ou pessimismo não depende das circunstâncias, mas do caráter ou da consciência do observador. Em outras palavras, a consciência do observador não se ilude nem pelas circunstâncias aparentemente favoráveis nem pelas calamidades. O ponto é que o nosso olhar deve estar adequadamente focado no objeto certo, no alvo correto e pretendido. O mínimo desvio do alvo nos fará colocar as circunstâncias acima do lugar que merecem estar. 

O salmista Asafe cometeu esse erro, isto é, colocar as circunstâncias acima do realismo de sua consciência. Em seu coração, ele sabia que “De fato, Deus é bom para com Israel, para com os de coração limpo” (Salmos 73.1). Mas, apesar de crer nisso, ele permitiu que, por um momento, seu olhar se focasse nas circunstâncias. Então, ele descreve: “Quanto a mim, porém, quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos maus” (Salmos 73.2-3). Ele mudou a direção de seu olhar. Passou a se importar com as circunstâncias em lugar de sua própria certeza de fé.

Foi nesse sentido que Jesus advertiu a sua audiência ao afirmar, em seguida, que “ninguém pode servir a dois senhores; porque ou irá odiar um e amar o outro, ou irá se dedicar a um e desprezar o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (Mateus 6.24). Ou colocamos o nosso olhar na direção certa ou nos perderemos pelo caminho. Nosso coração não pode estar dividido. Não podemos crer e descrer na mesma proporção.

Um coração dividido nos leva à ansiedade: “Por isso, digo a vocês: não se preocupem com a sua vida, quanto ao que irão comer ou beber; nem com o corpo, quanto ao que irão vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e não é o corpo mais do que as roupas?” (Mateus 6.25); mas a consciência segura e convicta do que deseja sabe para onde olhar: “Mas busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mateus 6.33-34).

O otimismo e o pessimismo, portanto, não podem depender dos eventos de nossa vida. Eles estão relacionados à consciência que temos de quem somos e do que pretendemos fazer nesse mundo. A questão, então, não é ser otimista ou pessimista, é colocar os olhos no lugar que de fato interessa, no alvo certo.

Tanto o otimista quanto o pessimista têm momentos ruins, crises e conflitos. Ambos adoecem, sofrem e se angustiam. Não são, porém, essas coisas que devem definir o que somos. O que somos depende muito mais de onde o nosso coração está colocado.

Os “bons olhos” olham para a pessoa certa, para o objetivo certo. Os “olhos maus”, porém, olham para satisfações temporárias, realizações passageiras. O que motiva o de “olhos bons” não é aquilo que satisfaz sua cobiça imediata, mas o que permanece para sempre. Os “olhos maus”, ao contrário, depositam nas coisas passageiras a razão de sua vida.