Para além da saudade, Dário Teixeira Cotrim fez um pequeno livro e deixou uma grande lição: não deixe para trás seus mortos e nem sua história, porque eles podem ter partido, porém, vivem em fatos, fotos e lembranças. Depois que são publicados, se tornam perenes. Dar esta sensação de eternidade deve ser o que move esse historiador incansável, que vive vasculhando o passado de todos os lugares e não só do seu berço que ficou debaixo d’água.

A Vila de Ceraíma ou Gentio, distrito de Guanambi (BA), submergiu, imaginou-se, para sempre, afogou-se sob as águas do açude. Desapareceu, deixando lágrimas no seu povo, que escolheu se mudar para uma área alta, onde fora fincado o cruzeiro, mas as autoridades erigiram as casas noutro local. O fatídico e doloroso desaparecimento não foi permanente. Dois anos depois, a barragem se rompeu, enchendo de água algumas ruas de Guanambi, e a vila, novamente aos olhos de todos, emergiu feito um cadáver insepulto em estado avançado de decomposição. Aquilo reavivou dores e maltratou corações, reabrindo feridas naqueles sertanejos inconformados e fortes.

Mais que uma homenagem a familiares e amigos, “Ceraíma, um baú de memórias” traz um álbum notável de fotografias, algumas precárias, é verdade, pelo tempo e origem de má qualidade, mas bem representativas. Está ali um povo que formou um conjunto por muito tempo, e que, depois da inundação, uma parte viveu junto noutro lugar e a outra se diluiu pelo mundo. A importância de se contar essa história com imagens, nomes e sobrenomes revive pessoas, mexendo com todos. O drama de ver sumir sua origem não interessa apenas aos descendentes e meninos daquela época (1958), mas a muitos outros. Toca fundo ao leitor, quando, num gesto de empatia, ele se coloca no lugar daquele menino, que viu a sua vila ser engolida, quando tinha oito anos de idade.

Impressiona a memória de Dário Cotrim, que, entre “choro e ranger de dentes”, descreve sua dor também em sonetos clássicos, sua especialidade, provando que nascer numa pequena vila sumida do mapa não significa estagnar, mas aceitar desafios em lugares distantes e crescer como pessoa. Em 1968, ele chegou a Montes Claros e hoje é seu Cidadão Benemérito. Conteúdo para pensar.