Cléo Mendes lançou seu livro “Biografia amorosa” um ano após a morte do seu marido Georgino Jorge de Souza Júnior. Lamento o fim da leitura. Quero mais! Cléo Mendes e Georgino Júnior viveram lado a lado de 1969, quando se conheceram, até o dia 13 de outubro de 2018, data em que ele morreu, com quase 70 anos, em decorrência de um câncer de pulmão.

No discurso de lançamento, Cléo nos alertou de que não era escritora, classificando de escritores o marido e os filhos. Informou que a obra constava de cartas, cartões, bilhetes, telegramas e poemas trocados entre marido e mulher durante a vida, em especial na década de 1990, quando moraram em cidades diferentes. Ele estava em Viçosa, fazendo mestrado, e ela trabalhava em Montes Claros.

A autora foi indiscreta, apresentando-se levemente despudorada, pois quase não usou a autocensura. Os poucos cortes e o realismo instigam o leitor, dando um toque de autenticidade. A ousadia de Cléo Mendes, ao publicar as missivas quase na íntegra, faz um desnudamento desejado. Fotos das cartas, num projeto gráfico exuberante, deram veracidade à narrativa.

Georgino Júnior foi grande, seja como artista plástico, seja como poeta, mas se escondia na timidez. Cléo, em homenagem a ele, fez um livro original, sem tarjas pretas, numa clareza explícita que acerta no alvo, mas sem ultrapassá-lo, mesmo expondo cartas íntimas. Segundo ela, foi uma catarse para dar fim ao luto, vencer uma etapa para enfrentar a próxima. A leitura foi uma delícia a cada verso.

O marido foi infiel, mas manteve-se leal, assim, o temor de Cléo era encontrar viúvas anexas. Georgino Júnior era talentoso, atraente e sedutor. Lendo suas cartas, é fácil entender a razão de Cléo amá-lo como ama, e de falar de certa fulana e uma alunazinha que eram apaixonadas por Georgino Júnior. Sim, mulheres admiradoras de intelectos brilhantes ficarão encantadas com a maneira de ele falar da sua doce paixão por Cléo. Depois de conhecer essa história, contada sem nenhuma preocupação cronológica, mas transbordante de emoção, muitos acreditarão que o amor eterno seja possível. Se até então não existia um manual do sentimento maior, Cléo preencheu essa lacuna. Seu livro é uma aula de amor.