Alguns a consideram (a felicidade) como apenas uma ilusão temporária ou um estado psicológico a partir do qual projetamos não o que somos de verdade, mas o que desejamos ser, embora isso seja inatingível

É difícil acreditar que a felicidade exista de verdade. Eu não ignoro tão rapidamente a sensação dos céticos de pensarem que acreditar em coisas desse tipo seja um empreendimento meio sádico. Os céticos são sádicos nesse sentido. Desacreditar de prazeres reais é fazer a gente desconfiar da felicidade. 

Vemos tantos desastres e sofremos com tantas desilusões nesse mundo que somos tentados a flertar com teorias desse tipo, que desdenham da existência de valores ou estados perenes, como a felicidade, por exemplo. Por isso, alguns a consideram como apenas uma ilusão temporária ou um estado psicológico a partir do qual projetamos não o que somos de verdade, mas o que desejamos ser, embora isso seja inatingível. Outros a compreenderam como resumida a duas coisas básicas: a boa saúde do corpo e a serenidade do Espírito. Assim pensava Epicuro, por exemplo.

Gosto do que afirmou C. S. Lewis, em Ética para viver melhor, a respeito dos três tipos de pessoas que existem no mundo: as que vivem apenas para o seu próprio prazer e benefício e consideram o ser humano apenas como matéria-prima para ser usada da forma que bem entender a elas; as que reconhecem alguma autoridade sobre elas – a vontade de Deus, o imperativo categórico ou o bem da sociedade (como os racionalistas, pragmáticos e utilitaristas) e com isso tentam buscar seus próprios interesses; e as que rejeitaram todas as exigências do ego, revirando, recondicionando e transformando todo o velho egoísmo em algo totalmente novo e que são capazes de dizer, como o apóstolo Paulo, “para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Filipenses 1.21). 

Eu acredito que essas últimas pessoas são aquelas verdadeiramente felizes. Não porque elas possuem algo material ou estejam numa situação favorável, mas porque compreenderam que suas vidas têm um propósito para além da matéria e da utilidade, para além das circunstâncias e das formas, que compreenderam sua própria dimensão e se voltaram para Deus.

Eu acredito que tudo que possui propósito tem valor. Nosso problema, às vezes, é querer encaixar tudo o que pensamos numa lógica cartesiana e tentar desenhar num gráfico o caminho para a felicidade. Todavia, eu creio que há propósito em tudo, até mesmo naquilo que consideramos sem propósito.

Às vezes, precisamos permitir que o nosso coração seja preenchido por significados que estão fora de nós mesmos, abrindo mão de nossa arrogância racionalista. Como afirmou Antoine de Saint-Exupéry em “O pequeno príncipe”, “nós, que compreendemos o que é mais importante na vida, não estamos presos aos números. Aliás, eu gostaria de ter começado essa história como se fosse um conto de fadas... para quem compreende o que é mais importante na vida, essas palavras criariam um clima muito mais verdadeiro”.

Há significado, ainda que nós não atribuamos significado. Deus existe, ainda que afirmemos que ele não existe. Há salvação, ainda que visualizemos a desesperança e o inferno. Os sentidos estão para além de nós. O propósito da felicidade não depende de nós, ele está para além de nós. Fazemos parte do propósito, mas não somos, individualmente, o propósito. As razões não estão em mim. Podemos ser felizes, apesar de nós.