Não é difícil concluir, portanto, que muitos problemas que enfrentamos derivam do fato de desfavorecermos os começos e ignorarmos os pequenos sinais que comumente nos indicam sobre onde o nosso coração deve repousar a fim de alinharmos a continuidade dos entremeios para atingirmos o resultado pretendido

Por onde começar? Podemos dizer que essa é uma das questões mais fundamentais da existência humana. Embora nosso foco quase sempre esteja nos resultados ou nos entremeios, não se pode negar que o modo como começamos pode determinar seriamente o curso do que planejamos. Todo bom projeto tem um bom começo. Não necessariamente indefectível, mas promissor.

Definir o começo, entretanto, não é tão simples. Como argumentou Peter J. Leithart, em seu Salomão entre os pós-modernos, a causa é sempre começo de um efeito? Uma bola chutada por uma criança na rua e que voa a certa velocidade é a causa de uma janela quebrada antes de ela atingir a janela? Mas se a bola só é a causa da quebra da janela após o efeito, a saber, a janela quebrada, o que vem primeiro: o efeito ou a causa? E mais: um começo nada é se não admitirmos para ele um fim. O que é, portanto, mais importante: o princípio ou o fim das coisas? Ou quem sabe, o meio. 

O Pregador de Eclesiastes defende que “melhor é o fim das coisas do que o seu princípio; a paciência é melhor do que a arrogância” (7.8). A intenção do provérbio é, naturalmente, apelar para a sensatez e a prudência, antídotos contra a precipitação. 

O paciente sabe esperar o tempo, porque “há tempo para todas as coisas” (Eclesiastes 3.1). Há pessoas que começam bem, mas não sabem terminar, ou por não discernirem o momento certo ou por permitirem que os projetos morram por inanição. Nesse caso, os projetos morrem independentemente delas. 

Pensando desse modo, é prudente refletir sobre a ideia de que todo o processo é igualmente importante, tanto o início quanto o fim, e obviamente os entremeios. Afastar nossa atenção dos detalhes que nos cercam diariamente é desprezar o princípio das coisas e colocar em risco, em outra ponta, os resultados do processo. Corremos o risco de, por ansiedade imatura, gerar natimortos.

Não é difícil concluir, portanto, que muitos problemas que enfrentamos derivam do fato de desfavorecermos os começos e ignorarmos os pequenos sinais que comumente nos indicam sobre onde o nosso coração deve repousar a fim de alinharmos a continuidade dos entremeios para atingirmos o resultado pretendido.

Somos facilmente distraídos por ideias que em nada contribuem para o nosso desenvolvimento. Investimos tempo, dinheiro e fôlego precipitadamente em planos inúteis, que não possuem nutrientes necessários para se manterem.

Assim, o começo pode significar também o fim de algo, se ele não for concebido com a devida prudência. É necessário pensar em todo o processo e ver o início não necessariamente como uma parte apenas, mas envolvê-lo no todo, a fim de que os entremeios e o fim contenham significativas partes do começo, a fim de relembrar, de tempos em tempos, que a origem de tudo teve um propósito cuja motivação é a essência vital do que ainda existe.