
Em Montes Claros, a implantação do estacionamento rotativo digital no entorno do Mercado Municipal Christo Raeff tem gerado insatisfação entre visitantes e comerciantes. O modelo, adotado em dezembro de 2025, extinguiu os bilhetes físicos e exige ativação por aplicativo ou compra de créditos em pontos credenciados. A fiscalização é eletrônica e a multa é aplicada automaticamente após o vencimento do tempo, o que tem provocado queixas de usuários.
O aposentado Idelcy Caldeira, frequentador do Mercado, destaca que a troca não favoreceu o movimento. No momento da reportagem, ele estava fazendo compras em um açougue e, apressado, disse precisar tirar o veículo do local, pois não queria arriscar ser multado. As outras compras ele decidiu deixar para trás. “Tem que tirar o veículo, mudar de lugar e renovar o crédito no horário exato do vencimento. Não pode ser antes nem depois a renovação. Isso, para nós que queremos fazer feira e escolher os produtos com calma, é muito incômodo. Quando era no talão, havia uma tolerância de 15 minutos. Tínhamos tempo para renovar”, disse. A funcionária do açougue que o atendia reiterou que a iniciativa trouxe prejuízo e o desagrado é geral. “Pode perguntar a qualquer um aqui. Ninguém está satisfeito. Foi muito ruim e diminuiu o movimento”, confirmou.
Os agentes da MCTrans, de acordo com os comerciantes, passam cerca de três vezes ao dia ou mais, com o propósito de identificar veículos que não estejam no radar. A situação tem afugentado clientes, especialmente aqueles que vêm de fora e escolhem o Mercado pela diversidade de produtos e referência cultural. Há 30 anos no mercado, o comerciante Maurício Pereira revela que o sistema está atuando contra os lojistas e contra os visitantes. As reclamações, segundo diz, são frequentes e alguns de seus clientes já saíram do local sem concluir as compras, ao serem informados das novas regras pelos próprios comerciantes, para evitar constrangimento. “Imagina uma pessoa que vem comprar uma carne, um queijo, e sai daqui com uma multa de R$ 190 no estacionamento de um local público. É constrangedor”, afirma.
Ele acrescenta que o espaço está configurado com guarita e, mesmo não funcionando, elas existem para delimitar a área do estabelecimento, portanto, não devem ser tratadas como vias comuns. “Deveriam colocar as guaritas para funcionar, ao invés de sair multando todo mundo como se estivessem na rua. Todos estão insatisfeitos. Fizeram um teste de 30 dias e, no dia 31 de janeiro, começou a funcionar, já distribuindo multas. As pessoas têm que sair correndo para retirar o veículo. Concordo com a área azul para organizar o trânsito na cidade, mas é inviável no estacionamento do mercado”, considera. Outra situação apontada pelo comerciante diz respeito ao funcionamento precário do aplicativo, que estaria inviabilizando o acesso. Segundo Maurício, os comerciantes querem que a medida seja revista. “Do lado direito e esquerdo da Avenida existem os supermercados, que são privilegiados na concorrência, pois oferecem estacionamento gratuito. Está complicado para nós. Queremos ser ouvidos sobre as decisões que nos afetam”, sugere.
Uma outra comerciante destaca que a administração municipal deve criar mecanismos para atrair e não para afastar os clientes. “Já existem as feiras de bairros que acontecem à noite e não têm área azul, por conta do horário. Estamos em horário comercial, em um espaço público, e somos penalizados por causa dessa cobrança. Quem vinha almoçar, passear com a família, acabava comprando alguma coisa. Esse não vem mais. De todo modo, estamos levando prejuízo”, lamenta.
Em contato com a Prefeitura de Montes Claros, o órgão informou que o rotativo digital foi implantado em atendimento a uma demanda crescente, da própria população, por soluções digitais e que a MCTrans tem realizado ações educativas para orientá-los. “A fiscalização segue sendo essencial para garantir o cumprimento das regras e evitar que veículos permaneçam estacionados por longos períodos, comprometendo a rotatividade e prejuízo ao comércio”. Sobre os aplicativos, informou que não existe um único aplicativo obrigatório e que permanece disponível a opção de compra do bilhete em pontos de revenda credenciados, para atender quem não utiliza aplicativos.
A lista no site da MCTrans indica dois pontos de venda próximos ao Mercado, mas a reportagem confirmou que apenas um fornece o sistema. A informação indica ainda que as renovações dos créditos não podem ser realizadas pouco antes ou pouco depois do horário exato, exigindo que os compradores interrompam ou suspendam as compras, como alegado por usuários. Nesse ínterim, eles ficam sujeitos a multa pelos agentes.
