
A Polícia Civil de Montes Claros apresentou, na quinta-feira (5), a conclusão do inquérito que apurou a morte de uma mulher de 42 anos durante um procedimento estético em uma clínica particular da cidade e indiciou a médica, de 28 anos, responsável por homicídio doloso, na modalidade de dolo eventual. O caso ocorreu em 11 de dezembro de 2025 e a investigada responde ao processo em liberdade.
De acordo com as investigações, a vítima procurou a clínica para a realização de uma chamada “mini lipo”, procedimento considerado menos invasivo que a lipoaspiração tradicional, realizado na região dos flancos e das costas. Durante a intervenção, a paciente sofreu uma parada cardiorrespiratória. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e prestou os primeiros socorros, mas a mulher não resistiu.
O laudo de necropsia confirmou que a causa da morte foi um choque hemorrágico provocado pela perfuração da artéria femoral direita. Conforme apurado, a própria médica realizou o procedimento e administrou anestésicos, entre eles o propofol, substância que exige cuidados rigorosos e monitorização contínua do paciente.
Segundo a delegada responsável pelo caso, Francielle Drumond, a anestesia foi aplicada sem a presença de um anestesista habilitado. “Em determinado momento, essa paciente evoluiu para uma parada cardiorrespiratória. A médica investigada relatou que só percebeu que algo de estranho estava acontecendo porque a paciente não demonstrava incômodo e já apresentava coloração arroxeada. Foi então que a vítima foi colocada de barriga para cima e iniciaram os procedimentos de reanimação”, explicou.
A investigação também apontou improviso na prestação de socorro. O consultório não dispunha de equipamentos básicos de suporte à vida, como carrinho de parada, desfibrilador e aparelhos de monitorização. Profissionais de clínicas vizinhas, ouvidos pela Polícia Civil, confirmaram a ausência desses equipamentos e relataram que itens precisaram ser emprestados durante a tentativa de reanimação.
“O Conselho Federal de Medicina deixa claro que, quando o propofol é administrado, a paciente deve ser obrigatoriamente monitorizada, em razão dos riscos que essa anestesia pode trazer. A Polícia Civil concluiu, a partir de diversos elementos comprobatórios, que não se tratou apenas de um erro médico ou de uma fatalidade, mas de uma sequência de erros e de escolhas arriscadas praticadas pela profissional”, destacou a delegada.
As apurações revelaram ainda que a médica não possuía habilitação específica para realizar o procedimento. Recém-formada, ela apresentou apenas documentos que indicavam o início de pós-graduações na área estética. Testemunhas do Samu também relataram que o local não tinha estrutura adequada para procedimentos de pequeno porte.
“Houve um erro gravíssimo na execução do procedimento. A perícia demonstrou que a morte foi causada pela introdução desproporcional da cânula, que atingiu a artéria femoral de trás para frente, além da administração do propofol sem profissional habilitado e sem monitorização”, afirmou Francielle Drumond.
