Onde está Alegria?

Fogos com estampido causam fuga de cachorro e expõem impasse em MOC

Márcia Vieira
marciavieirayellow@yahoo.com.br
Publicado em 08/01/2026 às 19:00.
A cachorra “Alegria” está desaparecida desde o dia 31 de dezembro. A tutora pede ajuda e pede que lei entre em vigor (Arquivo pessoal)
A cachorra “Alegria” está desaparecida desde o dia 31 de dezembro. A tutora pede ajuda e pede que lei entre em vigor (Arquivo pessoal)

Em Montes Claros, a noite de 31 de dezembro, que deveria ser de comemoração, se transformou em tormento para a autônoma Luiza Lafetá e o esposo André Nogueira. O casal decidiu passar o réveillon com familiares que residem no Morada da Serra, um bairro tranquilo e onde provavelmente não haveria barulho de fogos de artifício. A realidade foi diferente daquela prevista pelo casal. A cachorra Alegria, que faz jus ao nome e é o xodó da família, entrou em situação de estresse intenso quando os vizinhos soltaram fogos.

“Em desespero, ela conseguiu quebrar e atravessar o relógio de água que fica no muro e fugiu. Nós vimos pelas imagens das câmeras cedidas por vizinhos. Iniciamos as buscas ao redor imediatamente e, até hoje, 8 de janeiro, não temos nenhuma notícia dela. Estou muito mal”, conta Luiza.

A cachorra caramelo está com 12 anos e há sete, com a família que a adotou. “O primeiro tutor faleceu e a família dele não tinha como ficar com ela. Foi amor à primeira vista. Adotamos e nos dedicamos a ela com muito amor. Ela é dócil, tranquila e a nossa companheira. Precisamos que ela volte”, declara Luiza, reiterando que os fogos não foram intensos, mas o suficiente para a perturbação.

Ela é uma das muitas tutoras que lutam diariamente para que entre em vigor a lei que proíbe fogos com estampido. No dia 4 de dezembro de 2025, após resistir por quase um ano, o presidente da Câmara de Montes Claros, Junior Martins, colocou em votação o projeto da vereadora Ceci Protetora, que proíbe o uso, a queima e a soltura de fogos de artifício com estampido em todo o município. O projeto foi aprovado e, segundo Junior, seria imediatamente encaminhado ao prefeito para sanção.

Durante a votação, a dona de casa Karine Santos, que acompanhou o desenrolar dos fatos, destacou, em entrevista ao O NORTE, que esperava do prefeito uma atitude coerente e que ele abdicasse de gastar recurso público comprando fogos para a virada do ano. Mãe de duas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Karine relatou que seus filhos sofreram grandes traumas em virtude dos fogos, tendo sido hospitalizados, chegando a ficar sem oxigênio por algumas horas. O recurso, disse Karine, deveria ser empregado na saúde, e não em situações que causam pânico. Mas, pouco mais de 20 dias após a aprovação do projeto, foi a própria prefeitura quem ignorou o anseio do povo e promoveu show pirotécnico com barulho na Lagoa do Interlagos. Um trecho da divulgação da festa nas redes oficiais da prefeitura dizia que “pela primeira vez, serão usados fogos de baixa incidência sonora, uma medida que tem como objetivo ‘tornar um espetáculo inclusivo’, já que a queimada de fogos comuns pode ser prejudicial para portadores de hipersensibilidade auditiva, como pessoas que possuem Transtorno do Espectro Autista (TEA) e alguns animais, como cães e gatos”. Para a protetora A.A., a iniciativa teve a intenção de confundir a população. “’Baixo ruído’ também é ruído e não anula o impacto. A lei é para substituição dos fogos com estampido pelos fogos de vista, sem ruído algum. Muitos animais ficaram desorientados e perdidos”, disse.

Esta semana, as redes sociais trazem comentários acerca das consequências advindas dos fogos. “Essa ignorância de soltar fogos não para”; “A hora que explodir na mão de quem faz isso, eles vão parar”, e “Minha cachorrinha sumiu devido ao estouro de fogos, foi chutada por um motoqueiro e perdeu um olhinho”, são alguns dos comentários. “O mau exemplo vem daqueles que deveriam zelar pela segurança da população. Certamente ele (o prefeito) estará na plateia assistindo a tudo e passando por cima do direito da população. Estamos de olho e, no dia do jogo, nosso grupo estará lá para mostrar a todos o que eles estão fazendo”, promete a mãe atípica, S.G, que preferiu não se identificar.
 
TRAMITAÇÃO
Após receber o projeto, o prefeito tem o prazo de 15 dias úteis para sancionar. Caso não o faça, a aprovação é automática e depende apenas de um ato administrativo do presidente da Câmara Municipal para entrar em vigor. O encaminhamento ocorreu no dia 8 de dezembro, conforme o site do Legislativo. Passados cerca de 17 dias úteis, considerando, com folga, os feriados e dias facultativos, Junior Martins não promulgou a lei. Procurado, o parlamentar que não está em recesso e tem autonomia para proceder com os atos administrativos, disse que está “aguardando os desdobramentos normais do processo”. Questionado se o projeto já teria retornado à Câmara, Junior afirmou que está “aguardando o retorno”.

A reportagem entrou em contato com a prefeitura desde a tarde da última quinta-feira (7), para informações sobre a situação e qual destinação foi dada ao documento, porém, até o fechamento da edição, não houve retorno.

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