Lixo doméstico

Descarte irregular de materiais cortantes coloca profissionais em risco

Márcia Vieira
Publicado em 23/07/2026 às 19:00.
Flávia Cardoso por pouco não se acidentou com copos quebrados descartados na lixeira: “ é falta de humanidade e de preocupação com o outro” (Márcia Vieira)
Flávia Cardoso por pouco não se acidentou com copos quebrados descartados na lixeira: “ é falta de humanidade e de preocupação com o outro” (Márcia Vieira)

Em Montes Claros, o descarte inadequado de vidros e outros materiais perfurocortantes no lixo doméstico continua expondo trabalhadores da limpeza, garis e catadores de recicláveis a acidentes que poderiam ser evitados com medidas simples. Especialistas alertam que o acondicionamento correto desses resíduos é fundamental para prevenir ferimentos e reduzir riscos de contaminação durante o manuseio do lixo.

A diarista Flávia Cardoso por pouco não se feriu quando fazia a limpeza em um condomínio. Ao organizar a lixeira do prédio, deparou-se com copos e taças de vidro quebradas, descartadas por algum morador sem os cuidados devidos. “Não me machuquei porque estava com a luva e, de certa maneira, ela protege. Mas é um material muito fino e pode perfurar a luva. E se eu não tivesse visto? Vira e mexe acontece de ter algum material, mas hoje foi uma grande quantidade. Me assustei”, conta Flávia.

Em seguida, ela mesma envolveu o material em um saco plástico e colocou em uma sacola de papelão, trabalho que deveria ser feito antecipadamente por quem descartou o material. Para Flávia, o que traz indignação é a falta de preocupação com o outro. “Se alguém joga o lixo desse jeito, sabe que tem alguém que vai coletar e pode se ferir, ter uma complicação pior. Poderia ser eu, ou os garis, ou qualquer outra pessoa. Todo mundo sabe que a saúde da cidade está precária. Imagina ter que se afastar do trabalho ou buscar atendimento por uma irresponsabilidade que poderia ser evitada. É uma falta de humanidade, de perceber que tem um ser humano do outro lado que vai fazer esse serviço”, disse.

A enfermeira Valéria Carvalho orienta que o descarte de resíduos que apresentam risco de corte, como vidros, garrafas, potes e pedaços de espelhos, deve ser embrulhado em papel grosso, papelão ou colocado em recipientes resistentes, antes de ser descartado. Além disso, devem ser identificados com a palavra “vidro” para alertar quem vai manusear o lixo. “Outra opção é utilizar uma garrafa pet para colocar os resíduos e lacrar com uma fita adesiva”, explicou. A enfermeira também fala sobre os materiais que, apesar de não serem vidro, representam alto risco, como seringas, agulhas e lancetas. “Nesse caso, além de cortes profundos, há o risco de contaminação com resíduos deixados nesse material. Ou até mesmo no contato, no caso de um colega socorrer o outro. São vários tipos de acidentes que o descarte irregular provoca”. 

RECICLAGEM
Sidney Coutinho, presidente da Associação de Catadores Eco Galpão, diz que, além dele, outras quatro associações em regiões distintas da cidade estão vinculadas ao edital do projeto Recicla aos Montes, que permite receber vidros de origem residencial. “A comunidade pode fazer o descarte no nosso galpão, desde que não seja cerâmica, vidro box, vidro temperado, louças ou medicamentos, a gente recebe. Não é exclusivamente garrafa. Um e outro vidro, como copos e outros utensílios, nós recebemos. Depois, a prefeitura recolhe nas associações”, explicou, acrescentando que “o programa não nos dá condições de coletar nas residências. O próprio morador tem que levar ao nosso endereço. Normalmente, as pessoas levam até a associação mais próxima da sua região”. Quanto à destinação do produto depois que sai do galpão, ele não soube informar se a usina de vidro da prefeitura está ativa.

Para Vaine Antunes, síndica de um condomínio na região sul da cidade, mesmo com o estabelecimento de regras, vez ou outra, o inusitado acontece. “Acho que faltam mais campanhas educativas, tanto na sociedade, como nos lares, e principalmente, o direcionamento do poder público. A criança de hoje é o adulto de amanhã e tem que estar ciente desses riscos e das consequências que uma atitude dessa traz. Ter lugares específicos e a coleta seletiva residencial é extremamente necessário”, destaca.

A usina de vidro da prefeitura, inaugurada em 2023, estaria com o maquinário danificado e a operação em suspenso, segundo servidores da área. Procuramos a prefeitura para informar sobre a atual situação do empreendimento e dados de acidentes com esse tipo de material, bem como a implantação integral da coleta seletiva, que não chegou aos bairros. Até o fechamento da edição, não obtivemos retorno.

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