Tombar ou não?

Automóvel Clube de MOC tem destino incerto

Assembleia geral extraordinária nesta quinta-feira (24) discutirá mudança de estatuto

Adriana Queiroz e Márcia Vieira
23/11/2022 às 22:40.
Atualizado em 23/11/2022 às 22:47
 (Léo Queiroz)

(Léo Queiroz)

Tombar ou não? Eis a questão. Construído em 1964, a partir de um projeto de Geraldo Mércio Guimarães, o prédio de dois pavimentos na área central da cidade tem história antes mesmo de ser alçado a condição de clube. De acordo com o historiador e diretor de Museu do IHGMC, Dario Teixeira Cotrim o “erro” começou justamente quando a casa de Dona Tiburtina -protagonista de um dos maiores eventos políticos do país- foi destruído e cedeu lugar a construção do clube. 

“Um casarão belíssimo que representava o poder político de nossa cidade. No lugar construíram-se o Automóvel Clube, que agora está sendo objeto de estudos para a sua venda e/ou recuperação. Há dezenas de sócios-proprietários que desejam a sua demolição, para com isso concretizar a venda do terreno. Há uma grande parte da população que deseja exatamente o contrário”, opina. 

Quem diria que essa casa que já abrigou a família de Dr. João Alves e Dona Tiburtina e, posteriormente, o Instituto Norte Mineiro de Educação, hoje foi substituída pelo imponente Automóvel Clube de Montes Claros? (ACERVO DORZINHA GUIMARÃES/WAGNER GOMES)

Quem diria que essa casa que já abrigou a família de Dr. João Alves e Dona Tiburtina e, posteriormente, o Instituto Norte Mineiro de Educação, hoje foi substituída pelo imponente Automóvel Clube de Montes Claros? (ACERVO DORZINHA GUIMARÃES/WAGNER GOMES)

 Entretanto, o historiador entende que as duas situações devem ser consideradas, pois, com o tombamento, possivelmente o prédio continuará sendo descaracterizado e “daqui a vinte anos estaremos falando a mesma coisa. Sem o tombamento, alguma empresa possa se interessar em comprá-lo e – quem sabe? – no futuro será construído um belíssimo edifício, embelezando a cidade com as suas luzes coloridas. Vamos pensar nas duas decisões e apoiar a mais conveniente para todos”, pondera.

O prédio está inventariado pelo Conselho do Patrimônio Cultural do Município, o que significa que já não pode sofrer alterações em arquitetura, mesmo pertencendo aos sócios. Dos dois mil iniciais que mantinham cota no clube restaram cerca de 80. Fechado, o clube atualmente está ocupado por moradores em situação de rua, que colocaram utensílios e roupas no local. 

Mas a história nem sempre foi assim...
Palco dos maiores eventos da cidade, o Automóvel Clube sediou encontros políticos, festas monumentais de 15 anos, recepções de casamento, bailes de gala, vernissage, lançamentos de livros, festas folclóricas e recebeu personalidades diversas. De artistas como Francisco Cuoco ( em seu apogeu), Elke Maravilha, Nelson Gonçalves, Perla, a políticos que transitavam com maestria pelos salões, como o ex-governador Francelino Pereira que escolheu o clube para lançar o seu livro “ Chão de Minas”. Acordos políticos foram selados e comemorados no local. Foi ali também que amigos e sócios se despediram de Lazinho Pimenta, um dos cronistas sociais que ajudou a manter a aura de magia e encantamento do espaço, promovendo ali bailes de carnaval e festas sociais. Lazinho foi velado no AC, onde era onipresente. 

Ator Francisco Cuoco nos tempos áureos do Automóvel Clube, que se encontra fechado. (ACERVO DORZINHA GUIMARÃES/WAGNER GOMES E LEONARDO QUEIROZ)

Ator Francisco Cuoco nos tempos áureos do Automóvel Clube, que se encontra fechado. (ACERVO DORZINHA GUIMARÃES/WAGNER GOMES E LEONARDO QUEIROZ)

 O clube que foi casa de Dona Tiburtina carrega desde o seu nascedouro um viés político. O advogado Odorico Mesquita cresceu próximo ao Automóvel Clube e lembra fatos que descortinam a Montes Claros de outrora. 

Morador da Rua Barão do Rio Branco, a mãe de Odorico foi uma das primeiras sócias do clube. A cota foi oferecida com o prédio ainda em construção e ela não pestanejou, pois havia a lacuna de um espaço que abrigasse outra corrente política na cidade que não fosse o PSD. Este, já encontrava aconchego no Clube Montes Claros. 

“Embora não fosse proibido frequentar, aqueles que se alinhavam mais ao PR, se sentiam desconfortáveis e as vezes deixavam de ir ao Clube Montes Claros. Então quando minha mãe adquiriu a cota foi também pensando em nos integrar, interagir, oportunizar uma convivência com pessoas que tinham pensamentos semelhantes”, conta o advogado que nem imaginava que ali viveria um dos momentos mais marcantes da sua vida. 

“Foi no Automóvel Clube que dancei a valsa com Regina, em seu baile de debutante. Naquele dia já aparecemos como namorados”, diz Odorico, que em 2021 completaria 50 anos de casados, união que foi interrompida com o falecimento da esposa há 5 anos. Do casamento nasceram 5 filhos. Mesmo se mudando para o RJ onde permaneceu trabalhando por alguns anos, o advogado manteve os laços com a cidade e voltava para as festas de fim de ano. 

“Os reveillons no Automóvel Clube eram uma oportunidade para rever os amigos. Os que moravam fora vinham para a festa. Um momento de confraternização muito saudável e inesquecível”.

Preservação importante

Wagner Gomes, nascido e criado em Montes Claros reside hoje em Belo Horizonte, mas nunca deixou de participar ativamente da vida social em Montes Claros e é responsável pelo acervo e preservação de fotos da história de Montes Claros. A maioria delas traz o Automóvel Clube como palco. Para ele, o clube, tal como idealizado e construído, hoje apenas habita os corações e mentes das gerações que o frequentaram em seu apogeu, declínio, agonia e morte. 

“É bem verdade que, em sua origem, reunia, apenas os bem-nascidos. Obra arquitetônica projetada pelo talento de Geraldo Mércio Guimarães tendo como incorporador e construtor o jovem engenheiro José Pimenta de Carvalho, da Zeta Incorporação e Construção, aos quais rendemos nossas homenagens. Com o correr do tempo, ao perder a identidade elitista, rendeu-se à inclusão social e viveu o seu apogeu. Palco de festas memoráveis, desde a sua inauguração em 1964, quando apresentou o VII Baile de Debutantes de Lazinho Pimenta. O casamento de Ruth Jabbur ( hoje colunista de O Norte) creio eu, foi o primeiro ali comemorado. Desde então, abriu suas portas para Réveillons espetaculares e festas monumentais produzidas pelos colunistas sociais Lazinho Pimenta, Theodomiro Paulino e Magnus Medeiros. Em suas horas dançantes nas jovens tardes e noites de domingo, nasceram muitos namoros que chegaram ao casamento. Outros tantos se dissolveram. Abrigou reuniões políticas importantes na época efervescente da Sudene. Recebeu presidentes e governadores, senadores, deputados, ministros e um sem número de grandes empresários brasileiros”, relembra Wagner, que defende uma adaptação do espaço para perpetuar o Automóvel Clube.

“Faz parte de nossa história e deveria ser preservado. Creio que o seu melhor destino seria abrigar um Centro Cultural, em conta, ter um espaço apropriado para shows, teatros, lançamentos de livros, galerias de arte e demais eventos tão ao gosto de nossa vocação de cidade da arte e da cultura. Nosso povo e nossa gente espera que o Prefeito Humberto Souto o tombe e o perpetue como Centro Cultural”, pontua. 

Futuro pode ser decidido nesta quinta

Diante de uma notificação da prefeitura, comunicando a possibilidade de tombamento do prédio, o presidente em exercício, Paulo Cezar Santos convocou os sócios para uma Assembleia Geral Extraordinária nesta quinta-feira, 24, as 18h30, cuja discussão será a mudança de estatuto do clube. 

À reportagem, Cézar declarou que recebeu com surpresa a notificação do secretário de cultura , solicitando o tombamento do prédio.

“Entendemos que o clube teve participação importante nos últimos 60 anos da vida de M Claros,mas dai querer “tombar “ , como patrimonio , tem uma enorme distância. O Clube tem dono, que são os sócios. E como notícia, o Clube voltará a funcionar a partir de Janeiro de 2023 , não como Clube social , mas com outras atividades. Espero que esta iniciativa não prospere”, manifestou o presidente.

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