As reclamações dos passageiros com relação ao transporte coletivo em Montes Claros não cessam. Pelo contrário, parecem aumentar a cada dia. Vão desde o descumprimento dos horários, o que deixa as pessoas por muito tempo nos pontos, à forma como são tratados pelos funcionários das empresas, passando ainda pelas condições dos veículos.

E o que já é considerado ruim, ainda pode piorar. No último fim de semana, alguns veículos deixaram de circular por falta de diesel. E as empresas alertam que a situação é caótica, com o sistema muito próximo do colapso. 

Antes da pandemia, a retirada dos cobradores de algumas linhas, situação permitida pela prefeitura sob a alegação de reduzir custos, gerou transtornos à população. Desde a chegada do coronavírus, embora tenha havido redução do número de passageiros, usuários postam nas redes sociais vídeos que mostram o “aperto” nos coletivos, com muita aglomeração em horários de pico, elevando o risco de contágio.

O líder comunitário do bairro Major Prates, Valdey Soares Pereira, enviou ao Executivo um documento com 935 assinaturas, colhidas desde março, de pessoas insatisfeitas com o transporte e pedindo providências. Uma delas seria o aumento do número de carros circulando em decorrência da pandemia.

“A volta para casa é sempre difícil. Muitas vezes os carros atrasam por mais de uma hora”, diz a moradora do bairro São Geraldo II, que prefere não se identificar.

Em um vídeo enviado à rede social, a internauta Laura Silva registra uma fila de pessoas que fazem a viagem em pé e próximas umas das outras.
 
QUEDA DE PASSAGEIROS
O sofrimento dos passageiros está muito longe de ser resolvido. A concessionária MocBus, responsável pelo transporte público em Montes Claros, alega que o movimento foi reduzido em 70% com a pandemia e que a possibilidade de aumentar o número de carros circulando estaria descartada.

A empresa afirma que busca o redimensionamento do serviço, com a redução dos veículos em circulação, ou aporte financeiro para operar na proporção demandada. Atualmente são 136 carros.

A concessionária alega que, em virtude da pandemia, o prejuízo financeiro já chega a R$ 4 milhões com o fechamento da planilha de maio.

“O serviço vai colapsar. Não temos previsão de em quanto tempo isso vai acontecer, porque há muitas variáveis. Nossa capacidade de endividamento já passou do limite. Temos boletos em aberto, credores, atraso de pagamento de funcionários e fragilidades econômicas que são apresentadas e prenunciam um colapso no serviço”, disse o advogado da concessionária, Victor Marcondes.

Ele ressalta que, caso não haja um entendimento com a prefeitura, “numa previsão muito otimista, a empresa suportaria o serviço por no máximo mais 15 dias”. 
 
MEDIAÇÃO
Para mediar a situação, a MocBus tomou a iniciativa de pedir uma audiência com os juízes Evandro Cangussu e Richardson Xavier Brant, além de representantes do Ministério Público e do Executivo.

O encontro aconteceu na tarde de ontem e possivelmente será estendido a uma segunda reunião ainda esta semana.

“Há mais de um mês foi informado à prefeitura que havia o risco concreto disso (falta de diesel) acontecer. Daí tivemos a iniciativa de procurar a Justiça”, afirma Victor Marcondes.

Segundo ele, o volume de passageiros transportados caiu para 30%, o que não segura um sistema com custos para manter 100% de usuários.

“A discussão é sobre a busca do equilíbrio. É uma situação delicada e o agente público tem que ter uma responsabilidade muito grande”, diz o advogado que reitera não haver “briga” com a prefeitura, mas apenas a busca de uma solução que equilibre a prestação do serviço.

LOTAÇÃO
Marcondes afirma que a superlotação reclamada pelos passageiros não estaria acontecendo. Segundo ele, mesmo com o relaxamento das medidas do isolamento social e a autorização para retorno de alguns serviços o movimento ainda é pequeno.

“O movimento oscilou de 30% para 35% com picos de 37%. Com 70% de ociosidade é difícil falar em situação de superlotação”, ressaltou.

A reportagem procurou a MCTrans, responsável pela fiscalização do serviço, mas o presidente do órgão, José Wílson Guimarães, não foi encontrado.