Trabalhadores da Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro (PBio), com sede em Montes Claros, iniciaram uma greve que não tem prazo para terminar. Eles alegam que a Petrobras teria anunciado a venda da unidade e estão temerosos quanto à manutenção dos seus empregos.

Pela manhã, alguns trabalhadores ainda permaneciam dentro da usina. De acordo com a assessoria do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro-MG), a paralisação desses trabalhadores que ainda cumpriam o turno aconteceria de maneira gradual e dentro dos parâmetros de segurança, a fim de não provocar pane nos equipamentos e danos à cidade.

“Fizemos várias reuniões. A greve é o último recurso e reivindica a manutenção do emprego dos trabalhadores concursados da PBio, que em 2019 ouviram a falsa promessa de que seriam realocados para outras unidades do sistema, em caso de venda da Petrobras Biocombustível”, disse à reportagem Alexandre Finamori, presidente do Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro-MG).

“Estão entregando o braço verde da Petrobrás, que trabalha com matriz energética mais limpa. A privatização está acontecendo a preço de banana. Junto com ela, estão vendendo também os 150 trabalhadores da usina. É um desmonte do projeto de energias renováveis e um desrespeito à cidade de Montes Claros”, pontuou.
 
Produção
A capacidade produtiva da Unidade Montes Claros é de 167 mil metros cúbicos/ano. Junto com a de Candeias (BA), usa uma mistura de até cinco matérias-primas diferentes (óleo de soja, de algodão e de palma, gordura animal e óleos residuais) para a produção de biodiesel, capturando vantagens na dinâmica sazonal dos preços.

A Usina Darcy Ribeiro foi inaugurada em abril de 2009, em solenidade que contou a presença do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A ocasião foi amplamente festejada e representava um fio de esperança para centenas de agricultores familiares que viam ali a garantia de escoamento da sua produção e do sustento da família.
 
Energias limpas
“O objetivo principal, além de realizar energias mais limpas a partir das oleaginosas, é desenvolver a região do semiárido e incentivar a agricultura familiar. Já chegamos a consumir a produção de 9 mil famílias de agricultores familiares. Tinham dificuldade para escoar a produção, receberam assistência técnica e consumo garantido”, explica o dirigente, que teme o “desmonte” da usina.
 
Menos impostos
Para ele, além do prejuízo no desenvolvimento industrial, na geração direta e indiretamente de empregos, há o risco claro de redução de impostos.

“Na mão da iniciativa privada não haverá garantia de funcionamento. Se o biodiesel ficar à mercê do interesse econômico do comprador, não terá a garantia que tem hoje. Podem deixar de usar a agricultura familiar para adotar o monocultivo de soja do agronegócio. Quando for interessante, vão vender soja e, quando não, usarão o biodiesel na usina, a partir da soja, ou seja, mais uma forma de acumular renda para os grandes atores do agronegócio e as famílias produtoras da região ficarão desamparadas”, teme Alexandre.

Em nota, a Petrobras Biocombustível disse que “foi informada por entidades sindicais da Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro sobre a intenção de realizar um movimento grevista a partir de 20 de maio. A companhia reconhece o direito de greve, mas reforça que as motivações apresentadas podem caracterizar uma paralisação abusiva, visto que o pleito das entidades sindicais não preenche os requisitos legais para o exercício do direito de greve”.

A empresa aponta ainda, na nota, que, “Com o desinvestimento da PBio ocorrerá a sucessão trabalhista, ou seja, os empregados permanecerão na empresa, que terá um novo operador. Não há a possibilidade de os empregados concursados para a Petrobras Biocombustível serem incorporados aos quadros da Petrobras S.A, conforme pleito colocado pelas entidades sindicais como justificativa para a greve”. 
 
Medidas judiciais 
Ainda segundo a sede da empresa, a PBio tomará medidas judiciais e administrativas para a garantia da continuidade operacional em Montes Claros.

A reportagem tentou contato com a prefeitura, para saber sobre possíveis prejuízos com a conclusão da privatização, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.