A falta do transporte escolar para atender os estudantes dos conjuntos habitacionais Monte Sião I, Monte Sião IV e Minas Gerais criou um efeito ainda mais devastador do que obrigar crianças e jovens a andar até quatro quilômetros para ir e voltar da escola. Muitos deles tiveram que deixar a casa dos pais e foram morar com outros parentes em bairros que ficam próximos às unidades de ensino.

Eles ficam fora do lar durante a semana e se juntam à família no sábado e domingo. Uma ruptura que interfere no emocional desses estudantes e causa muita tristeza nos pais e nas crianças.

Essa foi a forma encontrada para driblar a falta dos ônibus que deveriam levar esses meninos e meninas até as escolas da rede estadual. Desde 2017, como O NORTE vem mostrando nesta semana, o prefeito de Montes Claros, Humberto Souto, suspendeu o serviço alegando que seria uma obrigação do Estado – apesar de o transporte ser efetuado pelo município nas gestões anteriores. Situação que vem tirando milhares de alunos das salas de aula.

Gabriel, de 10 anos, passou para o 6º ano do ensino fundamental. Mas, para conseguir frequentar a escola, ele teve que deixar a casa dos pais, no Monte Sião I, para ficar, durante a semana, com a avó materna, no Major Prates.

A luta é muito difícil, segundo a mãe do garoto, Gislene de Jesus Silva, de 40 anos. Para ir do conjunto até a casa da avó, são necessários dois ônibus. “Quando tenho dinheiro, ele vai para a escola e volta para casa. Mas nem sempre consigo pagar pela passagem, aí ele fica com minha mãe e busco na sexta-feira”, conta a diarista que não tem trabalho certo para custear o transporte. Ela diz ainda que a rotina é cansativa.

DOR EM DOBRO
E sem perspectiva de abertura de escola no bairro, o pequeno Miguel – caçula de Gislene –, que deve ir para a creche neste ano, entrará no mesmo esquema do irmão. Caberá à avó Oquita, de 68 anos, cuidar dos meninos.

Gislene torce para que a questão do transporte escolar seja resolvida neste ano para que os meninos possam ficar em casa, com ela. “Bate uma saudade e tenho que ligar para ele todo dia para ficar tranquila”, afirma.
 
VÍNCULO
Assistentes sociais da Prefeitura de Montes Claros que estavam no conjunto habitacional durante apuração da matéria ressaltaram que atuam no sentido de ajudar os moradores a permanecer nos residenciais, a criar vínculos. “Tem muita, muita gente que recebeu casa aqui e foi embora, por não ter escola”, diz uma delas.

As servidoras contam que foi aplicado um questionário para saber a realidade de cada domicílio e começar o trabalho. “A gente percebeu que o maior problema se refere à educação. Sem os recursos do governo estadual, têm muita criança fora da escola e esse número vai aumentar, porque os ônibus estão superlotados, não atendem todo mundo”, ressalta uma das profissionais, lembrando que “esse é um problema do Estado, e não do município”.

Crianças e jovens expostos à violência
“Essa questão (da falta de escolar) tem tirado o sono de todos nós”, afirma a presidente da Associação dos Bairros Monte Sião I e II e integrante da Associação de Defensoras Populares de Montes Claros, Ediane Afonso.

Segundo ela, um número cada vez maior de meninos e meninas passou a residir com os avós ou com famílias de conhecidos para conseguir estudar, só retornando para os residenciais no fim de semana. “Caso contrário, não teriam como ser educados. Muitos pais que não fizeram isso estão com os filhos fora da escola”, lamentou a líder comunitária.

Outra questão grave apontada por Ediane, que divide o tempo entre o curso de Pedagogia e o trabalho voluntário, é o risco de violência ao qual os alunos estão expostos durante o percurso a pé para a escola.

“Como em muitos casos os menores fazem o trajeto de ida e volta sozinhos, correm sério risco de serem vítimas de todo tipo de violência, como abuso sexual”, aponta. Ediane ressalta que a negligência da prefeitura atinge em cheio uma mãe com três filhos com autismo e outras sem mobilidade e deficiência.

“É um problema maior ainda porque não têm como irem a pé, pagarem o meio-passe e, tampouco, uma van, porque o que as famílias têm de dinheiro é para alimentação, remédio, ou seja, os filhos acabam sem opção e fora da escola”, lamenta.

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