A demissão de funcionários do transporte coletivo de Montes Claros vem causando indignação e preocupação, tanto em trabalhadores do setor quanto em passageiros. Desde dezembro do ano passado, os cobradores começaram a ser retirados dos ônibus com o objetivo de reduzir custos das empresas para conseguir manter o valor da tarifa em R$ 2,85.

No entanto, o “acordo” que havia sido feito com a Prefeitura de Montes Claros de desligar 30% desses trabalhadores já saltou para 50%, deixando pais e mães de famílias sem o ganha-pão. Além disso, passageiros reclamam que, sem o cobrador, as viagens têm atrasado muito, pois o motorista é quem precisa receber o dinheiro e dar o troco.

O presidente do Sindicato de Transporte Coletivo Urbano de Montes Claros, Dalvair Ferreira, esteve na Câmara Municipal na terça-feira pedindo apoio dos vereadores para sensibilizar o prefeito Humberto Souto para intervir nesta situação.

Dalvair conta que esteve com o procurador Municipal, Otávio Rocha, em outubro de 2019, acompanhado do vereador Rodrigo Cadeirante. Na ocasião, o procurador teria dito que a demissão de 30% dos trabalhadores do sistema de transporte coletivo do funcionalismo seria necessária para manter a tarifa de R$ 2,85 nos ônibus.

Entretanto, depois disso, a prefeitura permitiu um aditivo, aumentando as demissões para 50%. O acordo teria sido selado sem o conhecimento prévio de vereadores, sindicato e população. A primeira leva de demissões ocorreu em dezembro de 2019. Nesta semana, mais 16 funcionários foram surpreendidos com o desligamento. 

“Até entendemos que as empresas operam com a tarifa. Eles falam que o preço praticado não condiz com a realidade, mas os cobradores dependem deste emprego para levar a feira às suas casas. São cerca de 300 cobradores, mas, incluindo os motoristas, são 800 empregos. E a média é de quatro pessoas por família, ou seja, cerca de 3.200 pessoas dependem disso para comer”, disse o presidente do sindicato, ressaltando que há um temor de que os cortes atinjam também motoristas e a diminuição de linhas.

“A prefeitura poderia, como alternativa, subsidiar o transporte para não penalizar a categoria, como acontece em cidades como São Paulo e Curitiba”, sugeriu Dalvair.

Uma das cobradoras demitidas, Liliane Reis diz que, além da perda do emprego, se preocupa com a situação do transporte público. “Eu e minha família somos usuários do transporte coletivo. A qualidade já não é boa e vai piorar. Os ônibus vão atrasar mais”, disse.


Projeto de Lei exige trocador nos coletivos

Passageira da linha Bairro-Centro, B. S. presenciou uma cena que ilustra a dificuldade dos usuários do transporte coletivo em Montes Claros após a retirada dos cobradores. “A senhora quis pagar e o motorista não tinha troco. Ele disse que havia acabado de assumir a direção do veículo e não tinha como efetuar a cobrança. Para não deixá-la constrangida, paguei a passagem dela. Por sorte, eu tinha dinheiro trocado, mas, se não tivesse, não sei qual seria o final dessa história. Talvez ela tivesse até que descer do ônibus”, relatou.

A situação levou o vereador Daniel Dias (PCdoB) a entrar com Projeto de Lei que exige a permanência de um cobrador em cada veículo do transporte coletivo. O argumento do parlamentar é a de que Montes Claros está vivendo um momento econômico e social delicado e a solução adotada pelo prefeito para não aumentar a tarifa do ônibus agravou o quadro.

“A retirada dos cobradores é prejudicial à qualidade, à segurança e ao conforto dos passageiros e dos operadores do sistema de transporte. Se um motorista não pode dirigir usando o celular ou algo que tire a sua atenção, como é que um motorista de coletivo vai poder dirigir e fazer troco ao mesmo tempo? Se ele tiver que ajudar um cadeirante, por exemplo, vai ter que parar, prestar ajuda e depois voltar ao serviço”, afirma Daniel.

O vereador pontuou que linhas como a 2601, uma das mais movimentadas e que corta toda a cidade, leva cerca de 1h30 para fazer o percurso. Sem cobrador, este tempo seria muito maior. 

Outro ponto abordado pelo vereador é de que o critério previsto no edital e que levou o Consórcio MocBus a vencer a licitação foi justamente a oferta do menor preço. “O preço máximo era R$ 3,30. Eles apresentaram uma tarifa de R$ 2,75 e, depois que venceram o processo, incluíram esse aditivo que causa essa situação de demissão em massa”. O projeto do vereador segue para as Comissões e deve ser votado nas próximas reuniões. 

Em nota, o Consórcio MocBus informou que o aditivo já havia sido definido com a Prefeitura de Montes Claros e que o corte é necessário para manter a tarifa atual.

A responsabilidade de fiscalizar o cumprimento do horário e itinerário dos veículos é de responsabilidade da MCTrans. O presidente do órgão não foi encontrado para falar sobre a situação. O procurador do Município não retornou às ligações até o fechamento da edição.