A dona de casa Valéria Duarte convive diariamente com o receio de não conseguir controlar o lúpus, doença autoimune que pode afetar os rins e pulmões e torná-la mais suscetível à Covid-19. O uso do medicamento chegou a ser interrompido por ela depois que a demanda pelo produto aumentou, após ser apontado como eficiente no combate ao coronavírus. Houve uma corrida às farmácia, em busca do remédio, que chegou a faltar para quem realmente precisa e já faz uso dele. 
 
“A falta do remédio provoca inchaço. Eu cheguei a ficar no CTI e receber drenagem no corpo cinco vezes. Mesmo precisando tomar o remédio continuamente, dividi o meu com uma pessoa que precisava e não estava conseguindo. Evito sair, mas estando em casa é necessário também controlar a doença”, afirma Valéria, que lida com outra situação de risco. O filho Pietro, de 8 meses, precisa se submeter a uma cirurgia de reversão de colostomia e o procedimento foi cancelado, sem previsão de novo agendamento.
 
“No hospital me disseram que as cirurgias eletivas não poderiam ser realizadas. Minha preocupação é que o intestino dele vai crescer e a cirurgia vai ficar mais complexa. Quando a gente liga, eles falam que não existe previsão para remarcar”, explica Valéria, que vê no procedimento o único caminho para amenizar as dores do filho. “Ele chora por mais de quatro horas seguidas, sente fortes dores abdominais e preciso dar o paracetamol para diminuir a dor”, lamenta.
 
A pandemia pelo novo coronavírus gerou vários outros problemas, além dos relativos à doença. Segundo o defensor público Cláudio Fabiano Pimenta, a situação afetou pacientes vulneráveis que precisaram recorrer à Justiça para ter direito aos medicamentos, cirurgias ou internações.
 
“Temos cerca de 220 processos em dificuldade de efetivação, agravados por este quadro da pandemia. Pedimos bloqueio de valores das contas do poder público para efetuar a compra de medicamentos, mas infelizmente a espera pode resultar até em óbito. São medicamentos para pacientes em tratamento oncológico ou oftalmológico que correm o risco de perder a visão, dentre outras situações. A demanda pela área da saúde não cessa”, atesta o defensor.
 
Hospitais adotam contingência
O colapso do sistema de saúde revela outras deficiências que vão além do espectro do coronavírus e levou os hospitais da cidade a adotarem um plano de contingência. Em nota conjunta, os hospitais Universitário Clemente de Faria (HU), Santa Casa, Dílson Godinho, Aroldo Tourinho, Hospital das Clínicas Dr. Mário Ribeiro da Silveira (HC) e Prontossocor pedem à população que fique em casa para evitar acidentes e uma busca desenfreada pelas unidades de saúde que, no momento, não suportariam uma alta demanda.
 
Os estoques ainda existentes estão sendo reservados para atender apenas casos emergenciais. Os fornecedores estão sem condição de produzir o suficiente para atender a demanda. “Em função da escassez de matéria-prima no mercado em face do aumento da demanda durante a pandemia da Covid-19, os estoques de anestésico e relaxantes musculares, fundamentais no tratamento médico de pacientes em diferentes condições, estão no limite”, diz a nota.
 
Em outro trecho, o documento ressalta a gravidade da situação apontando que, além do desafio de ampliar os leitos de UTI e respiradores, a ausência de medicamentos pode piorar a situação dos acometidos pelo coronavírus. “Sem esses remédios, a ventilação mecânica não pode ser feita de forma adequada e o paciente corre maior risco de morte”, traz o documento.
 
O Ministério Público de Minas Gerais endossou a nota e emitiu um comunicado dizendo que está acompanhando a situação em âmbito local, regional e nacional e “informa que ainda não há previsão concreta de normalização dos estoques de medicamentos no curto prazo”.
 
Desabafo pela espera
A internauta I.B. fez um desabafo em rede social ao revelar ter vivido a situação. Ela relata que viu pacientes, inclusive idosos, em situação pior do que a dela, na espera dolorosa por materiais de cirurgias ortopédicas.
 
“Devemos ficar em casa para diminuir o risco de contaminação e o número de acidentes? Sim, com certeza! Mas não podemos nos esquecer de uma coisa. Os acidentes diminuem nas ruas, mas aumentam em casa. Isso é inevitável. Temos sim o agravamento da pandemia, mas ela não eliminou as nossas outras necessidades. O que vamos fazer diante disso? Sentar e esperar? Porque às vezes parece que essa é a única alternativa que nos é dada. Falta medicamento sim, mas faltam muitas outras coisas também”, escreveu.