A Polícia Civil de Montes Claros concluiu o inquérito sobre a morte de uma menina de um ano e dois meses. O corpo da pequena Maria Valentina Alves Rodrigues foi encontrado em casa no dia 6 de julho. A menina apresentava várias lesões em todo o corpo, inclusive com sinais de abuso sexual.

De acordo com o delegado Bruno Rezende, responsável pela Delegacia de Homicídios, os pais da criança foram indiciados por homicídio qualificado, crimes de maus-tratos, estupro e abandono de incapaz. Se condenados, a pena pode chegar a 30 anos de prisão.

“Para nós, fica caracterizado que ambos efetivamente agrediram essa criança naquela madrugada, além da ocorrência de abuso sexual identificado pela necropsia”, afirma o delegado.

Segundo ele, a vulnerabilidade social da família foi efetivamente identificada no inquérito. Ao todo, eram cinco crianças agredidas e abandonadas pelo casal. Em depoimento, os filhos confirmaram que as agressões e o abandono eram constantes.

De acordo com Bruno Rezende, os exames mostraram que a menina foi brutalmente agredida, apresentando lesões na costela e no intestino, com rompimento da alça intestinal, e dilaceração anal, que caracteriza a violação sexual. Inicialmente, o casal negou o crime. No entanto, a mãe confessou que agrediu a criança pelo menos cinco vezes naquele dia com tapas e murros porque ela não dormia.

OUTROS CRIMES
Os autores estão presos preventivamente, à disposição da Justiça, e já responderam por outros crimes: o homem, por homicídio, e a mulher, por tráfico de drogas. A mãe da criança possui passagem policial por tráfico de drogas, receptação e abandono de incapaz. O pai tem passagem por roubo, furto, ameaça, lesão corporal e homicídio e uma condenação por estupro de vulnerável. 

Na Delegacia de Homicídios, pai e mãe disseram que não interferiam na violência praticada pelo outro. Os outros filhos do casal foram ouvidos e narraram diversas agressões por parte dos pais. Não falaram sobre violência sexual, mas disseram que eram frequentemente abandonados e agredidos. Um deles chegou a questionar, durante o depoimento, se os pais realmente gostavam deles.
 
EM ALTA 
A violência contra crianças tem crescido durante a pandemia e há uma grande preocupação com a subnotificação. Um dos principais guardiões de meninos e meninas é a escola. Sem as aulas presenciais, é mais difícil que professores percebam mudanças nos alunos que possam indicar abuso e agressão.

Como O NORTE mostrou em 14 de julho, nos seis primeiros meses deste ano o Hospital Universitário Clemente de Faria (HUCF), referência no atendimento a pessoas vítimas de violência no Norte de Minas, registrou um aumento de 40% no número de crianças e adolescentes que chegaram à unidade de saúde com sinais de agressão – saltou de 57 no ano passado para 80 neste ano.

“É fundamental que a sociedade colabore com as forças do Estado e não permita que a violência contra crianças e vulneráveis seja praticada. Qualquer barulho ou situação estranha que se ouça, faça denúncia. Ainda que a mãe procure as forças do Estado para que violências como essa possam ser evitadas. Talvez, se tivéssemos uma denúncia antecipada, um cuidado da sociedade com relação a essa criança, essa tragédia não tivesse ocorrido. É necessário que as pessoas colaborem. Não precisa intervir diretamente, mas permita que o Estado tome conhecimento e adote todas as providências necessárias”, alerta o delegado Bruno Rezende.