“Nós não podemos aceitar que o dinheiro público seja jogado na lata de lixo”. A afirmação do vereador Fábio Neves (PSB) pode se referir à situação de diversas obras em Montes Claros, paralisadas há meses e sem previsão de entrega, como O NORTE já mostrou em várias edições. Desta vez, o foco é a escola municipal em construção no Residencial Vitória.

O parlamentar se disse assustado com o cenário que encontrou na rua Buganvílias, bairro Nova Vitória. “Obra totalmente largada, sem nenhum vigia, os materiais de construção jogados, sujeitos à ação do tempo”, enumera.

Orçada em R$ 3,5 milhões, a construção da escola foi garantida com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), autarquia ligada ao Ministério da Educação (MEC).

A instituição de ensino deveria ter sido entregue no último dia 7 de setembro, conforme cronograma oficial. No entanto, o que se vê no terreno é apenas a carcaça de um imóvel que deveria atender alunos da educação básica.

Os números do desdém impressionam. De acordo com a última vistoria do MEC, em 2 de setembro de 2019, apenas 28,52% da edificação estava concluída – na verdade, o esqueleto de 12 salas de aula rodeado de mato.

Apesar da obra parada, a empresa responsável pela construção, segundo balanço do FNDE – responsável por licitar, gerenciar e pagar as empresas pelas obras realizadas –, recebeu o 12º repasse em 31 de agosto de 2019, no valor de R$ 74.858,33.

Sem nenhum servidor para cuidar da construção e dos materiais, José Soares Neto, de 68 anos, que mora em frente ao terreno, orientou a reportagem no local e disse que zela voluntariamente pelo espaço para evitar saques.

José Soares conta que há mais de um ano a obra foi largada. “Tenho muitos netos em idade escolar, ou seja, o descaso é ruim para todo mundo”, lamenta.

Também em frente ao prédio desprezado pela administração municipal, O NORTE foi recebido pela família do pedreiro André Matias Godinho, de 32 anos. Ele chegou a trabalhar por dez meses na construção. Ao lado da esposa, Eliana Duarte, de 31 anos, queixou-se do descaso da municipalidade, lembrando que enquanto a obra não tem data para ser inaugurada, as filhas Aysla e Alana, que cursam o 6º e o 8º anos, respectivamente, são obrigadas a caminhar 20 minutos até a Escola Municipal Rotary São Luiz, no bairro Cidade Industrial. “Aqui seria melhor, bem em frente”, avalia. 

A poucos metros da casa de André Matias, Wanderson Rocha Santos preparava as filhas para enfrentarem ma caminhada de 40 minutos até a Escola Municipal Afonso Salgado, na rua Antônio Lopes da Silva, bairro Vila Atlântida.

Percurso não muito diferente da jornada diária de outros dois filhos, que foram matriculados na Escola Estadual Esteves Rodrigues, na avenida João XXIII, Vila Áurea. Para Wanderson, todos os esforços poderiam ser feitos no sentido de concluir a escola e oferecer mais conforto e segurança para as crianças e jovens.

SAIBA MAIS
Sem resposta
Acerca da denúncia do vereador Fábio Neves (PSB), a ausência de vigilância na escola do Residencial Vitória e sobre o destino da obra de R$ 3,5 milhões, O NORTE encaminhou vários questionamentos à assessoria de comunicação da Prefeitura de Montes Claros. Entretanto, até o fechamento desta edição, a equipe do prefeito Humberto Souto não se manifestou sobre o assunto.