A pandemia pelo novo coronavírus, que instaurou a maior crise sanitária do século, abalou a economia e alterou a vida no mundo inteiro, não tem sido capaz de assustar parte da população de Montes Claros. Muitos moradores insistem em não cumprir normas básicas determinadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como o distanciamento social, e, principalmente, o uso de máscaras, que reduz as chances de contaminação. Isso tem persistido mesmo com o aumento de casos da Covid-19 novamente, como em uma segunda onda.

O NORTE percorreu nesta semana, quarteirões fechados, praças e ruas sempre estreitas do Centro de Montes Claros, onde as aglomerações são inevitáveis e os comércios formais e informais funcionam a todo vapor. Apesar da obrigatoriedade do uso de máscaras, as imagens e depoimentos deixam bem claro que, principalmente entre os jovens, o argumento para não fazer uso da proteção é um só: o acessório é tirado apenas momentaneamente, para alimentação e em função do calorão, a despeito de muitos sequer mantê-las no pescoço.

O descuido acontece apesar de a cidade já ter registrado 15.056 confirmações da doença e 233 mortes. A ocupação de leitos clínicos pelo SUS está em 84% e, os de UTI, em 62%, conforme boletim divulgado na última terça-feira.

O principal argumento de moradores em Montes Claros para não usar a máscara é o calorão que está fazendo na cidade. Eles alegam grande desconforto. No entanto, especialistas alertam que o calor não pode ser desculpa para abandonar a proteção. Além disso, recomendam que sempre ao sair de casa, leve outra máscara para trocar, devido ao excesso de suor, que atrapalha a formação de barreira.

A população também não pode esquecer que o uso da máscara em espaços públicos no Brasil é obrigatório, por lei federal, desde julho de 2020. 

“Não tenho medo da pandemia”, admite o ambulante L.U.. Ele ressalta que trabalha durante oito horas no quarteirão fechado mais movimentado do Centro da cidade e que nunca, desde o início da pandemia, alguém pediu para que usasse o acessório. Ao lado do ambulante, outro vendedor, J.M., de 18 anos, alegou ter tirado a máscara para almoçar. No entanto, não tinha por perto a peça de proteção e muito menos comida.

Na esquina das ruas Simeão Ribeiro e Lafetá, entre as de maior circulação de pessoas na área comercial, durante quase uma hora em que a reportagem de O NORTE permaneceu no local, três ambulantes que comercializam alimentos atendiam os fregueses e conversavam sem máscaras, lado a lado, sem nenhum distanciamento. A prática vai na contramão das orientações para que os manipuladores de alimentos façam uso da proteção para diminuir ou evitar a transmissão do novo coronavírus. A alegação do grupo é a de que, em função do calor, “nem sempre as mantemos no rosto”.

“Procuro manter um bom distanciamento e ajeito a máscara quando alguém se aproxima para comprar”, afirma o vendedor R.S., de 51 anos, que comercializa guloseimas. “Além disso, uso essa máscara no pescoço porque está um pouco apertada em mim”, justifica a presença do acessório fora do devido lugar.

Mais vulneráveis, idosos se expõem ao risco
Apesar de todos os alertas de que os idosos são os mais vulneráveis à Covid-19, com maior propensão a desenvolver a forma grave da doença, levando ao óbito, alguns deles não se dão ao trabalho de adotar as medidas preventivas. M.B., de 69 anos, por exemplo, acredita que se virar de costas para os pontos de aglomeração reduzirá o risco de contaminação.

Parada no ponto de ônibus, à espera da condução, a moradora estava com a máscara no pescoço. “É o jeito. A gente tem que vir mesmo, precisa sair de casa”, explicou. Ela quer que a vacina chegue logo, “para acabar com esse pesadelo”.

Em Montes Claros, 76% das mortes por Covid foram registradas entre maiores de 60 anos – são 178 do total de 233, até a última terça-feira.

Na Praça Doutor Carlos, seguramente a de maior movimentação na cidade, o aposentado que se identificou apenas por M. diz ter consciência de que “ficar sem máscara é errado, muito perigoso, porque o certo mesmo é ficar 24 horas protegendo o rosto (risos)”. Mas, apesar da fala, o rosto continuava descoberto.

Do quarto andar do Shopping Popular, imagens feitas com lentes de grande alcance deixavam bem claro que a recomendação do uso de máscara sempre que sair de casa não é respeitado, nem mesmo por quem está com crianças de colo.
 
ORIENTAÇÃO E ALERTA
A secretária Municipal de Saúde, Dulce Pimenta, disse que a população tem sido orientada a usar máscara, quer seja pela nova onda do coronavírus ou pela espera da vacinação nos próximos meses.

“Apesar das perdas, dos óbitos, a adesão às práticas de proteção foi até aqui determinante para que Montes Claros, comparado com outros municípios, atravessasse bem essa fase. Então, a gente pede aos habitantes um pouco mais de paciência até que seja disponibilizada a vacina”, orienta a titular da pasta.

A secretária assegura ainda que sua equipe “já fez todo um planejamento, organização, para que a imunização seja feita rapidamente, respeitando os protocolos e as determinações do Ministério da Saúde das prioridades”. 

Para Dulce, é importante que a população mantenha os cuidados até que seja iniciada a vacinação no Brasil. “Nadamos muito e já estamos na praia para concretizarmos essa imunização em massa”, destaca.

A secretária alerta para o fato de que a redução das medidas de proteção, como a utilização de máscaras, lavagem constante das mãos e uso de álcool em gel, além dos distanciamento social, foram cruciais para a chegada de uma segunda onda.

Segundo Dulce, esse novo pico “se apresenta de forma mais intensa em Montes Claros, com maior incidência, mais letalidade que o primeiro pico em agosto/setembro do ano passado. Daí a importância na manutenção de todas as medidas de proteção”.