O reajuste generalizado de preços força uma mudança de hábitos alimentares em muitas casas. Em Montes Claros, onde a inflação acumulada nos últimos nove meses é de 7,18%, várias famílias foram obrigadas a rever o que compram no supermercado. Quem consumia carne de primeira passou para a de segunda, e quem já não podia bancar os cortes mais nobres agora opta pelos miúdos. Sem previsão de mudança no cenário econômico a curto prazo, e cada vez com menos margem para trocas, a dica é pesquisar e buscar promoções. 

A economista Vânia Vilasboas, da Unimontes, explica que a inflação acumulada revela a perda do poder aquisitivo. Resultado: o consumidor compra cada vez menos produtos. Em ampla análise, o período de pandemia que iniciou em 2020 e prossegue em 2021, até a primeira semana de outubro, tem na carne um dos grandes vilões.

“Os preços das carnes bovina, suína, avícola e de peixes têm subido de forma considerável e, em se tratando da carne bovina, nós já registramos do ano passado para agora um aumento na carne de primeira variando em 61,5%, em média. Cortes como o filé mignon registram aumento de 68,57%”, diz Vânia, complementando que a substituição de produtos, que funcionou como primeira alternativa, já não é suficiente para manter a alimentação em dia. O indicado é fazer pesquisa de preço e aproveitar ofertas.

“A carne de segunda registrou aumento de 38,46% e a opção do consumidor para fugir das carnes tão caras é justamente buscar as chamadas carnes de terceira, em especial os miúdos e vísceras, tanto bovino quanto avícola. Carnes como coração, rim, fígado, dobradinha, rabo, cabeça, pescoço, já tiveram aumento de 17% neste período, ou seja, não tem como correr. O que se tem a fazer é justamente buscar, ir atrás do preço promocional”.

A dona de casa Maria de Fátima Assis mora em São Paulo, está de mudança para Montes Claros e ficou assustada com os preços. 

“Desisti de levar a carne e estou levando um pedacinho de miúdo de frango. Depois (do pico) da pandemia subiram todos os preços. É orar a Deus e pedir para os preços baixarem, senão não teremos condição de comer”, diz Maria de Fátima, que também se assustou com outros preços. “Em SP, compro 30 ovos a R$ 9. Aqui, é R$ 13”. 

O produtor André Maia vende um pente de ovos caipira por R$ 20. “Na próxima semana teremos que subir o preço, devido à alta do milho e ração”.

Para a estudante Gabriela Silveira, virar vegetariana foi uma opção familiar que trouxe benefícios à saúde, ao meio ambiente e aliviou o bolso. “Em algumas ocasiões específicas a gente acaba consumindo carne, mas é um fim de semana ou uma vez por mês. Reduzimos quase em 80%”, diz. “Geralmente a gente opta por peixe, frango ou carne moída. Um quilo de carne por R$ 50 é um absurdo. Se não for uma coisa muito boa, a gente prefere evitar, porque tem soja, grão de bico, lentilha, hambúrguer de feijão, que são alternativas mais em conta”, diz. 

O gerente de uma rede de supermercados afirma que foi necessário implementar ofertas para atrair clientes. “Apostamos nas promoções. São dois dias da semana em que qualquer carne tem desconto de 20%, caso o cliente faça adesão ao cartão do supermercado. Compensa e as pessoas vêm mais nesses dias”.

Com sete pessoas na família, o supervisor de segurança aposentado Paulo César Lima conta que já não dá para comprar carne todos os dias e usa a internet para ver as promoções em cada estabelecimento. Com a alta do combustível, não se anima a fazer peregrinação pelos supermercados. “Antigamente eu comprava chã de dentro, alcatra, e hoje não consigo mais. Chego aqui e levo pé de frango, coxa e sobrecoxa. Quando está mais em conta, às vezes aproveito a promoção da peça”.