A apreensão de 20 pipas com cerol e outras 25 sem a substância cortante, só esta semana, fez a Guarda Municipal intensificar a fiscalização para coibir a soltura de papagaios no perímetro urbano de Montes Claros. Nesta época do ano, com ventos mais fortes, a atividade se torna ainda mais comum, apesar de ser proibida. 

A Lei 5.289, de autoria do vereador Rodrigo Cadeirante, restringe a brincadeira com pipas a áreas de recreação pública ou particular, clubes e regiões de fazenda. Não é permitido usar cerol nem linha chilena. 

A campanha “Pipa Legal - Cerol Mata” envolve 71 guardas municipais, incumbidos de levar orientações e advertir as pessoas. Quando flagram alguma situação irregular, os profissionais recolhem o material. “Mas, na maioria das vezes, quando as viaturas se aproximam, quem está brincando foge porque sabe que pode ser conduzido (à delegacia)”, diz Rosane Fiuza, analista de segurança da Guarda Municipal. A lei prevê detenção de 3 meses a um ano, além de multa de 10 a 200 UREFs. Quando o ato é praticado por menores de idade, eles só são liberados mediante a presença de um responsável, que então é autuado. Depois, o caso é levado ao Conselho Tutelar.

Rosane alerta que a campanha também se estende ao comércio, já que muitas lojas vendem ilegalmente a linha chilena.

O Samu registrou 16 atendimentos em que as vítimas precisaram ser levadas ao hospital após se ferirem com pipa, entre 2016 e 2020. A maioria das ocorrências foi no segundo semestre. Em um dos acidentes, em junho de 2020, uma mulher de 33 anos que passava de moto pela avenida Manoel Caribé Filho, região sul da cidade, morreu. A tragédia levou à criação da lei municipal. 

Ubiratam Lopes, coordenador do Núcleo de Educação Permanente do Samu Macro Norte, destaca que o ato aparentemente inocente de soltar pipa pode ser fatal, principalmente para ciclistas e motociclistas.

“Há dois tipos de produtos que transformam essas linhas em produtos afiados: o cerol com vidro e cola e a linha chilena, que tem alta capacidade de condução elétrica. Há o risco de uma linha que tenha um destes dois produtos entrar em contato com a rede elétrica, e a pessoa receber descarga”, alerta.

“A linha chilena tem capacidade três vezes maior de corte do que o cerol. É mais letal. Mas ambas são perigosas e a região do pescoço, normalmente atingida, é vascularizada e leva sangue para o cérebro. O trato respiratório também pode ficar comprometido. É imperioso que as pessoas revejam alguns conceitos e brinquem de forma responsável”. 

Segundo ele, houve uma queda nas ocorrências em relação ao ano passado. “Podemos associar à restrição de circulação de pessoas no período pandêmico. Talvez haja uma modificação de hábitos, com as crianças dando preferência a outras atividades em casa”, diz.

Daniel Fernandes, membro da Associação dos Pipeiros, com cerca de 300 integrantes, diz que a lei é bem-vinda e conta inclusive com a colaboração dos praticantes do esporte que não apoiam o uso do cerol. Ele afirma, porém, que a prefeitura deveria estipular um local para a atividade. 

“Tem muito pipeiro na rua. Realmente é difícil a fiscalização controlar isso porque a cidade é muito grande, mas para tirar do ponto de risco é preciso criar um local adequado onde as pessoas possam ir. A atividade é um esporte como qualquer outro. Foi sugerido o aterro sanitário como ponto que poderia abrigar os pipeiros, mas até o momento não houve parecer da prefeitura. A pipa em muitos estados é um patrimônio cultural. Precisamos de um local adequado”.

Até o fechamento da edição, O NORTE não conseguiu retorno da Secretaria de Esportes sobre a criação de um espaço para a atividade.