Quase quatro anos depois de ver fechado o Restaurante Popular, espaço que fornecia refeições a preços acessíveis, a população de Montes Claros assiste, indignada, ao descaso com o equipamento público. Depois do fechamento, que ocorreu no apagar das luzes de 2016 para receber adequações determinadas pelo Corpo de Bombeiros, o local foi completamente esquecido pela atual administração. 

Agora, no espaço, o que se vê são instalações completamente deterioradas, com forro do teto desabando e a ausência dos equipamentos que, até 2018, ainda estavam lá, mas já como alvos de saqueadores. Nem de longe lembra o local que fornecia milhares de refeições diariamente por apenas R$ 1.

Em agosto de 2018, depois de várias audiências públicas na Câmara de Vereadores e o clamor da população pela reabertura do espaço, O NORTE teve acesso ao prédio e mostrou o abandono. Dois anos depois, a reportagem volta ao local e registra um quadro mais assustador. 

A área tem servido de abrigo para moradores em situação de rua, que correm diversos riscos, dentre eles o de serem atingidos pela estrutura, já que parte do telhado desabou e o que restou ameaça cair. As instalações estão quebradas e os móveis, adquiridos com dinheiro público, desapareceram e ninguém na prefeitura sabe explicar o destino.

O servidor Gislândio Antunes Lacerda trabalha próximo ao antigo restaurante e diz que a população perdeu muito com o fechamento do espaço. “Eu almoçava sempre por lá. Algumas vezes até comprava tickets para doar a algumas pessoas que não tinham refeição. A comida, além de barata, era saborosa e balanceada, com acompanhamento de nutricionista. Estava sempre cheio. Com certeza, seria bom se voltasse a funcionar”, afirma o servidor.

“NÃO DAVA LUCRO”
Mas o sonho de Gislândio parece estar muito distante de se realizar. Confrontado diversas vezes em eventos públicos sobre uma possível reabertura do espaço, o secretário de Desenvolvimento Social, Aurindo Ribeiro, declarou que “o restaurante não dava lucro”.

ONGs e setores assistenciais rebateram o secretário e dizem que , de fato, o espaço não dava lucro, mas que não fora criado para esse fim. “O restaurante popular era uma alternativa que funcionava bem, especialmente para a população mais vulnerável. Hoje, a Secretaria Municipal, além de não oferecer nenhum tipo de política pública para assistir a essa população, retira dela o pão de cada dia. Para eles, essas pessoas são invisíveis”, disse V.C., que participa de um projeto da paróquia que semanalmente leva alimentos aos moradores de rua.

Fechado e motivo de escândalo 
Apesar do abandono do Restaurante Popular, o espaço foi o “pivô” do primeiro registro de desvio de recurso público da administração de Humberto Souto. Foi em 2017, quando o prefeito foi acusado de contratar uma nutricionista para atuar no local, que já estava fechado. 

O caso veio à tona em matéria publicada por O NORTE e o prefeito demitiu a funcionária, atribuindo a responsabilidade pelo ato a um secretário. O escândalo repercutiu e provocou a primeira baixa no staff do prefeito.

Em uma reunião no gabinete, o chefe do Executivo usou palavras de baixo calão ao se referir ao então secretário. O vídeo gravado por um assessor vazou e o secretário pediu demissão.

“Não tem para onde correr. O prefeito cometeu um crime. Se ele não foi responsável pela contratação, ele falhou como administrador porque deixou um subordinado seu fazer isso. Ou seja, ele foi negligente e mostrou que não é tão honesto como apregoa”, disse o vereador Ildeu Maia.

O secretário de Desenvolvimento Social, Aurindo Ribeiro, mais uma vez foi procurado pela reportagem para falar sobre a situação atual do Restaurante Popular e explicar o que foi feito dos equipamentos, mas não foi encontrado até o fechamento da edição.
 
OUTRA REALIDADE
Com capacidade para ofertar 1.500 refeições diárias, o restaurante popular funcionava anexo ao Mercado Municipal – que hoje também sofre com a degradação. As refeições eram subsidiadas pelos governos federal e estadual, com contrapartida do município, o que assegurava o preço final de R$ 1 por pessoa. Cada consumidor tinha direito a um suco e sobremesa.

Na gestão do ex-prefeito Ruy Muniz, o restaurante chegou a oferecer também a refeição noturna, mantendo o preço habitual e a mesma qualidade nutricional.