Mesmo acostumado a períodos seguidos de calor intenso, o montes-clarense tem sofrido com o clima nesse mês de outubro. Para amanhã, a previsão é de que os termômetros marquem 37 graus à sombra. O cenário agravado pela falta de chuva, baixa umidade do ar, forte luminosidade e pouco vento coloca a saúde em risco, sobretudo a de crianças e idosos. 

A outra má notícia é que o clima de deserto pode piorar nos próximos dias. No fim de semana, a temperatura deve passar de 38 graus na cidade, com sensação térmica acima de 40. E o verão, que só começa em 22 de dezembro, promete castigar. 

“Quando em outubro não chove é claro indicativo de que as temperaturas serão muito altas. É nesse mês que acontecem os recordes de temperatura, como ocorreu em 2016, quando registramos 40,2 graus”, explica Célio de Castro Barbosa, do 5º Distrito de Meteorologia de Montes Claros.

Segundo ele, neste ano a situação é preocupante porque o período chuvoso foi fraco. “Em janeiro não choveu nada. Em fevereiro, 92,7 milímetros; em março, 200,8; em caiu bastante novamente (41,3) e em maio 8,1. Em junho e julho não teve chuva”, lembra, salientando que a média de outubro é de 110 milímetros. “Isso (falta de chuvas) indica que a população e os produtores têm encontrado enormes dificuldades no período”, ressalta o especialista. 
 
SEM VENTO 
O responsável pela Estação Climatológica lembrou que os dados coletados de hora em hora na unidade em Montes Claros são enviados ao Inmet (Instituto de Meteorologia) e automaticamente disponibilizados na internet (www.inmet.gov.br). 

Célio de Castro destaca dois equipamentos utilizados pela estação para analisar o clima no município: o anemômetro, que mede a velocidade do vento, e o heliógrafo, usado para observar o número de horas de brilho solar. 

Segundo ele, a velocidade média do vento em Montes Claros é de 1.2 metros por segundo – “muito baixa” –, o que aumenta a sensação de calor e inibe a instalação de torres eólicas para captação de energia. 

Outro fator que castiga a população: a luminosidade no município, que chega a durar de 8 a 9 horas no inverno, nos demais meses oscila entre 11 e 12 horas. Ou seja, o céu fica limpo, sem barreiras contra os raios ultravioleta (maléficos para a saúde), praticamente todos os dias. 

Para evitar maiores danos à saúde, especialistas recomendam consumir bastante líquido, evitar locais fechados e com grande aglomeração de pessoas (que favorecem a disseminação de vírus) e evitar atividades físicas nos horários mais críticos, que são de 9h às 16h, porque é quando a umidade fica mais baixa. 

Economia também sofre
No horário do sol a pino, de meio-dia às 14h, quem precisa andar pelas ruas de Montes Claros se vira como pode para se proteger. Sombrinha já virou acessório indispensável. Protetor solar também. Mas nem sempre amenizam o mal-estar.

Que o diga o motorista de aplicativo Wagner Fabiano. Ele trabalha 12 horas por dia na cidade e justamente no período de maior luminosidade. 

“Não resta nenhuma dúvida de que a sensação térmica é maior em Montes Claros se comparada a Porto Seguro (BA), onde morei 15 anos, porque lá o vento sopra mais forte”, compara. 

O professor da UFMG Flávio Pimenta de Figueiredo, mestre e doutor em Engenharia Agrícola com ênfase em Gestão de Recursos Hídricos e Ambientais, defende que autoridades e os produtores “precisam se precaver com medidas conservacionistas para esperar pelas chuvas”. As medidas devem permitir que, ao caírem, as chuvas se infiltrem no solo para abastecer os lençóis freáticos e amenizar efeitos da seca. 

Destacou também que nesta época do ano o processo de evapotranspira-ção se intensifica, aumentando o déficit hídrico causado principalmente pelos fenômenos El Niño e La Niña – que desde 2014 vem causando queda no volume de chuva. “Serão necessários no mínimo mais cinco anos de ótimas chuvas, como foi 2018, para recuperação desses mananciais”, destacou. 
 
GRANDE IMPACTO
As altas temperaturas, de acordo com o ambientalista Eduardo Gomes, presidente do Instituto Grande Sertão (IGS), preocupam em 2019 porque “as primeiras chuvas ocorreram em período de grande incidência solar, redundando em forte evaporação, o que leva à perda de água superficial, com reflexo no nível das barragens que abastecem a região. 

A situação, diz ele, é atípica, e de grande impacto. “Como a chuva no Norte de Minas esse ano não teve regularidade, assistimos agora a alteração dos ciclos e a própria população rural observa bem isso. Basta lembrar que o pequizeiro já está florido, alguns têm frutos, ou seja, a evaporação em alto nível é sinônimo de perda ambiental e socioeconômi-ca”.