Railda Botelho


Repórter



Em meio à correria e à aridez do dia a dia, Antônio Souza Silva sensibiliza as pessoas com um trabalho diferente. Ele se propôs a  executar, dentro de uma humildade e tranqüilidade próprias, a trabalhar pelo próximo. Isso teve início há dois anos, quando, diante das dificuldades geradas pelo desemprego, Antônio resolveu reciclar material de várias naturezas, tendo um fascínio especial por livros, cadernos e revistas, que ele recolhe com muito cuidado e atenção dos locais em que são jogados fora e os recupera.



Mais conhecido em Montes Claros como Antônio do Chapéu, esse baiano da cidade de Itapetinga veio para a cidade há mais de 15 anos, e aqui trabalhava como servente de pedreiro. Descobriu, então, a reciclagem que, para ele, é hoje um presente que lhe proporciona grande satisfação profissional, além da oportunidade de ser solidário, quando distribui seus livros, cadernos e revistas em escolas, repartições públicas e outros lugares onde existem pessoas que gostam de ler e sabem valorizar a importância de um livro.



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Chapelões ajudam o baiano Antônio a sobreviver para ajudar os outros



PRETENDE ESTUDAR



Curiosamente, Antônio é analfabeto e, mesmo assim, tem uma admiração fascinante sobre os livros que recolhe nas ruas, e afirma que pretende ingressar em uma escola, para aprender a ler e escrever. Diz que essa será a sua grande satisfação: ler um dos livros que ele escolheu para si e estão muito bem guardados e cuidados à espera desse momento.



Para ele, o que faz, além de lhe proporcionar uma enorme satisfação pessoal, é também um ato de solidariedade, já que mesmo em sua condição humilde, sempre quis ajudar o próximo, e o seu maior objetivo é conscientizar a população sobre a importância e diferença que um livro pode vir a fazer na vida das pessoas, mesmo que ainda iletradas como ele.



Além de reciclar, Antônio fabrica objetos artesanais, usando uma técnica diferente, ou seja, utiliza os próprios jornais, papéis e revistas para confeccionar enormes chapéus, tipo mexicanos, que comercializa entre os amigos que já conhecem o seu trabalho ou de porta em porta. O interessante é que a cola usada para fazer a as peças é feita apenas com água e araruta, o que dá um bom resultado e não fica oneroso.



OUTRO SONHO



Maratonista, Antônio treina sozinho todos os dias pela manhã, e diz que seu grande sonho, além de participar um dia da corrida de São Silvestre, é mostrar o seu trabalho em outras cidades, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, não para se promover, mas para dar exemplo de que, com humildade e simplicidade, as pessoas podem ser solidárias.



Segundo explica, a confecção dos chapéus ocorre sempre aos domingos, por ser um dia mais tranqüilo e em que ele se encontra de folga, conseguindo fabricar de três a quatro modelos por semana.



Além da sua arte em reciclar, e do amor aos livros, Antônio é doador de sangue há mais de cinco anos e diz ter encontrado também nessa forma mais um jeitinho de ser solidário e encontrar a sua alegria pessoal.



As pessoas interessadas em conhecer o trabalho de Antônio, e também receber um de seus livros, podem procurá-lo no seguinte endereço: Avenida Central do Brasil, n° 1733, Bairro São Judas II.



Foto: Adriano Madureira