Viver à sombra do preconceito e da discriminação é uma situação contra a qual a advogada montes-clarense Katia Vanessa Pires luta desde a infância. Filha da empregada doméstica Maria dos Anjos Pires (Dona Du), Katia se esforçou para honrar o sonho da mãe: ver a filha formada, com uma profissão que lhe garantisse o futuro.

Para isso, Dona Du se sacrificou imensamente, para possibilitar que a filha tivesse melhores condições de vida. E Katia trilhou esse caminho. Formou-se em Direito e, bravamente, enfrenta os obstáculos que o fato de ser uma mulher preta lhe impõe.

Situação que não mais deveria existir no Brasil, país de população miscigenada, mas que ainda guarda preconceitos de todos os tipos. Neste sábado, Dia Nacional da Consciência Negra, O NORTE traz um bate-papo com a advogada que dá um conselho aos jovens negros: “Não abaixem a cabeça para o preconceito da sociedade e sejam os protagonistas na realização de seus sonhos e projetos”.
 
Quais os desafios teve que enfrentar por ser uma mulher negra? 
Tive e tenho os desafios comuns do preconceito duplo de ser mulher e negra. Posso citar diversos, tais como: ser ignorada; não ser ouvida; não ser convidada. Certa vez fui convidada a me retirar de uma reunião de trabalho sob a alegação de que o tema de assédio moral praticado por um homem na empresa poderia me constranger. Autoridades que querem subestimar a minha inteligência e me impedir de realizar a minha profissão de advogada. O maior deles e o que mais me feriu foi sobre uma turma de faculdade que se recusou a receber as minhas aulas. Não obstante os inúmeros desafios, não me curvo e nem abaixo a cabeça a eles. Mesmo que seja sob forte embargo emocional, eu faço o que precisa ser feito e venci a maioria dos desafios.
 
O que a sociedade ainda precisa evoluir com relação à diversidade racial no país? 
A Constituição da República Federativa do Brasil 1988, através dos direitos e garantias fundamentais e com a proclamação do princípio da igualdade, deu um avanço muito significativo nesse aspecto, e em decorrência disso, importantes ações afirmativas foram criadas para inclusão da população preta, como o sistema de cotas para ingresso nas universidades. A liberdade de expressão aliada ao princípio da isonomia permitiu que nós, os pretos, saíssemos da condição de sombras silenciosas e passássemos a ocupar os nossos lugares na sociedade com a convicção de que temos direitos iguais e a proclamar isso de todas as formas possíveis. Desse modo, com palavras e atitudes, com a valorização de nossa cultura e o combate ao racismo, quem ocupa lugar de representatividade passou a falar mais sobre a situação da população negra no Brasil e a buscar com veemência a desconstrução do racismo estrutural. As mídias sociais têm nos ajudado muito. Embora aqueles que não querem nos ouvir depreciem as nossas falas de conscientização apelidando-as de “mimi”, os discursos antirracistas estão crescendo cada vez mais e ensinando muitas pessoas. A sociedade precisa ter mais empatia com questões racistas e vontade verdadeira de se tornar mais humana e igualitária. Pode demorar várias gerações, mas o racismo estrutural neste Brasil altamente miscigenado um dia há de acabar.
 
Como o Direito pode atuar nesse sentido?
Nesse aspecto, o Direito pode ajudar tornando efetivas as normas existentes que visam o combate da discriminação racial e de atitudes preconceituosas. Por ser um complexo normativo que regula a vida em sociedade, o Direito tem um poder transformador de tornar a sociedade mais justa. Basta que em todos os âmbitos de elaboração, aplicação e fiscalização das normas haja a vontade das autoridades e dos operadores do Direito em tornar a lei eficiente.
 
O que você diz para os jovens que ainda tropeçam no preconceito para construir uma carreira? 
Busquem a educação como fonte de transformação do racismo estrutural, acreditem em suas potencialidades e em seus talentos. Não abaixem a cabeça para o preconceito da sociedade e sejam os protagonistas na realização de seus sonhos e projetos.
 
Você é um exemplo para muitas meninas do Norte de Minas. Qual o impacto disso na sua vida e profissão?
O impacto é forte e positivo, pois me estimula a dedicar mais às minhas profissões de advogada e professora do ensino universitário e demonstrar que é possível mudar as nossas origens e ter uma qualidade de vida melhor. Gosto de contar as minhas experiências e todas as minhas lutas para incentivá-las a ter sucesso profissional também. Me sinto extremamente realizada em ver as jovens estudantes pretas cheias de autoestima e da convicção de que estão no lugar certo.

 

Já senti hostilidade de alunas de minha cor e raça. Certa vez, uma turma se recusou a me receber como professora de Direito Processual Civil e quem trouxe o recado foi uma jovem negra que me disse que eles estavam acostumados a ter certos advogados renomados como professores e não uma professora como eu

Kátia Vanessa Pires, advogada e professora universitária