Previsão climática

Municípios em emergência se preparam para impactos do El Niño

Márcia Vieira
marciavieirayellow@yahoo.com.br
Publicado em 07/08/2026 às 19:11.Atualizado em 07/08/2026 às 19:12.
Amams e representantes da Defesa Civil propõem seminário para debater soluções de prevenção e combate a seca (Ascom Amams)
Amams e representantes da Defesa Civil propõem seminário para debater soluções de prevenção e combate a seca (Ascom Amams)

Municípios da região que já estão sob decreto de emergência em virtude da seca poderão ter a situação agravada pelo fenômeno El Niño. “Aqui em São Francisco, esse impacto começou cedo, deixando barragens e córregos praticamente secos. Dia 28 de abril, decretamos situação de emergência de estiagem. A situação está muito crítica com a falta de água potável em muitas comunidades”, disse Romenig Barbosa Martins, superintendente da Defesa Civil no município de São Francisco, primeiro a aderir ao decreto.

Informado da proposta da Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene (Amams) de promover um seminário ainda neste mês de agosto, com presença de especialistas, para tratar do tema, Romenig ressalta que a iniciativa pode auxiliar os municípios no esclarecimento de dúvidas e direcionamento. “Nós hoje contamos com recurso federal para contratar caminhões-pipa para abastecer a zona rural. Com recurso em mãos, contratamos cerca de 5 caminhões-pipa para atender mais de 18 mil pessoas da zona rural, mas não é suficiente. Precisamos de mais ajuda e sugestões”, comenta.

Além de São Francisco, os municípios de Catuti, São Romão, Montes Claros, Pedras de Maria da Cruz, Ubaí, Indaiabira, Juvenília, Santo Antônio do Retiro, Monte Azul, Ibiaí, São João do Paraíso, São João da Ponte, Salinas, Botumirim, Manga, Porteirinha, Brasília de Minas, Juramento, Bonito de Minas, Grão Mogol, Montezuma, Guaraciama, Mamonas, Montalvânia, Serranópolis, Riacho dos Machados, Pai Pedro, Nova Porteirinha, Taiobeiras e Matias Cardoso, também estão sob decreto de estiagem ou de seca, conforme informado pela Amams. Segundo o presidente da Associação, Ronaldo Mota Dias, a seca pode comprometer a produção rural, o abastecimento de água, a capacidade financeira dos municípios, com consequente diminuição de renda, e o aumento da demanda por políticas de assistência social e abastecimento de água. “Precisamos trabalhar de forma preventiva para que as prefeituras possam agir rapidamente diante de qualquer agravamento do cenário climático”, disse Ronaldo sobre a decisão de promover o seminário. A iniciativa 
tomou corpo a partir de reunião na tarde desta última quinta-feira (6), com representantes da Defesa Civil Estadual. A data do encontro ainda será definida.

FENÔMENO
O meteorologista Ruibran dos Reis ressalta que o fenômeno El Niño já está em atuação desde maio deste ano e apresenta intensidade considerada forte. A tendência, segundo disse, é de fortalecimento nos próximos meses, com possibilidade de impactos significativos para o estado, especialmente para as regiões Norte, Noroeste, Nordeste e parte do Leste de MG. “O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, na faixa próxima às costas do Peru e do Equador, em uma área conhecida pelos pesquisadores como região El Niño 3.4. Quando a temperatura da água fica pelo menos 0,5 °C acima da média, o fenômeno é oficialmente caracterizado. Já o resfriamento dessas águas recebe o nome de La Niña”, explica. O aquecimento das águas, conforme Ruibran, já alcançou 2,2 °C acima da média e pode ficar entre 3 °C e 4 °C até o fim do ano, configurando um “super El Niño”.

O fenômeno tende a se intensificar ainda mais até dezembro. Se isso acontecer, os impactos sobre o período chuvoso serão grandes. “Entre novembro de 2026 e fevereiro de 2027, o volume de chuvas pode ficar entre 60% e 80% abaixo da média histórica nas regiões mais afetadas do estado. Vamos enfrentar um período chuvoso muito fraco. A consequência será uma seca severa em 2027, com pouca recarga dos lençóis freáticos, secamento de nascentes e risco de problemas no abastecimento de água em diversas cidades”, alerta o meteorologista.

Além da redução das chuvas, o fortalecimento do El Niño deve favorecer ondas de calor mais intensas e prolongadas, diminuir a umidade do ar e aumentar significativamente o risco de queimadas, conforme o especialista. “A combinação desses fatores requer planejamento e uso consciente da água nos próximos meses, diante da possibilidade de um dos períodos mais secos dos últimos anos”, conclui.

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