Violência sexual

Maio Laranja: Norte de Minas alerta para abuso infantil em casa

Christine Antonini
chrys_antonini@hotmail.com
Publicado em 18/05/2026 às 19:00.

Em 18 de maio, o Brasil intensifica a mobilização do Maio Laranja, campanha nacional de combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, com ações de conscientização, debates e incentivo à denúncia para proteger as vítimas.

Dados levantados pela Unimontes, responsável pelo Hospital Universitário Clemente de Faria (HUCF), apontam que a violência sexual continua sendo uma realidade preocupante na região. Ao longo de 2025, foram registrados 211 atendimentos relacionados a esse tipo de violência. Já entre janeiro e abril de 2026, 66 novos casos foram contabilizados, demonstrando que o problema permanece presente e exige atenção constante das autoridades e da sociedade.

Mesmo sem a possibilidade de comparação direta entre os períodos, já que um corresponde ao ano inteiro e o outro apenas ao primeiro quadrimestre do ano, os números revelam tendências importantes. Crianças e adolescentes seguem sendo as principais vítimas. Em 2025, esse grupo representou mais de dois terços dos atendimentos realizados. Nos primeiros meses de 2026, menores de idade continuam concentrando a maior parte dos casos registrados.

De acordo com a socióloga Theresa Raquel Bethônico Corrêa Martinez, que atua no HUCF os dados locais seguem um padrão já observado em nível nacional. “Os nossos dados são muito parecidos com o que acontece nacionalmente. A gente tem uma incidência maior de crianças e adolescentes, em torno de 70%, com predominância de crianças. A violência sexual é majoritariamente maior em mulheres, embora haja um percentual de homens, que geralmente são crianças”, explica. 

Outro dado que chama atenção é o perfil das vítimas. As ocorrências atingem majoritariamente meninas e mulheres adolescentes. Em 2025, o público feminino esteve presente em mais de 80% dos registros. Em 2026, o índice se tornou ainda maior, aproximando-se da totalidade dos casos atendidos.

Ainda segundo o levantamento, a maioria dos casos de violência sexual e física continua ocorrendo dentro dos lares. Em 2025, 100 casos (47%) ocorreram em residências, seguidos por 23 em via pública (11%). Em 2026, foram 35 casos em residência (56%) e 9 em via pública (14%). Em ambos os períodos, há número relevante de registros sem informação (27% em 2025 e 24% em 2026). 

Para a assistente social Camila Lima, assistente social e Conselheira Tutelar da 1° Região, quando uma criança é violentada, toda a sociedade falha. E é justamente por isso que o Maio Laranja é tão importante.

“Os órgãos de proteção, assim como o Conselho Tutelar, atuam com base na suspeita, não sendo necessária uma comprovação imediata para que medidas de proteção sejam iniciadas. Conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente, é dever da família, da sociedade e do poder público garantir proteção integral às crianças e adolescentes, rompendo ciclos de violência e garantindo segurança e cuidado”, afirma. 
 
CENÁRIO
O levantamento revela ainda um aspecto recorrente nos casos de violência sexual: os agressores geralmente fazem parte do convívio da vítima. Amigos, conhecidos, companheiros, padrastos e até familiares aparecem entre os principais autores identificados. Em muitos registros, o agressor era alguém próximo, o que dificulta denúncias e aumenta o impacto emocional nas vítimas.

Os dados também apontam que a maior parte das vítimas é de Montes Claros, embora haja registros vindos de diversas outras cidades da região norte-mineira, o que evidencia a abrangência do problema.

“A maior parte dos agressores são pessoas conhecidas, de confiança das vítimas. No caso das crianças, são pessoas próximas da rotina, como pais, avôs, tios, padrastos e vizinhos. Já entre adultos, aparecem companheiros ou ex-companheiros”, afirma a socióloga a socióloga Theresa Martinez.

A assistente social, Camila Lima ainda pontua que a escola possui um papel essencial nesse processo de proteção. Considerando que grande parte dos casos de violência sexual ocorre no ambiente intrafamiliar, o espaço escolar se torna um dos principais locais de identificação de possíveis violações de direitos. 

“Pela convivência diária, professores e profissionais da educação conseguem perceber mudanças físicas, emocionais e comportamentais, além de identificar atitudes atípicas para determinada fase do desenvolvimento. Além disso, por acompanharem diretamente o desenvolvimento infantojuvenil, conseguem articular a rede de proteção e acionar os órgãos competentes diante de qualquer suspeita de violência. Também é fundamental validar as falas das crianças e adolescentes, acolher seus desconfortos e observar sinais verbais e não verbais”, pondera a assistente social. 

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