
O período de estiagem no Norte de Minas é também o que representa maior risco para as queimadas. A vegetação ressecada, combinada à escassez de chuvas e baixa umidade do ar, que habitualmente ocorrem nos meses de julho, agosto e setembro, é crítica para os incêndios florestais, segundo o Instituto Estadual de Florestas (IEF) e o Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais. Em 2024, o CBMMG registrou 454 ocorrências de incêndios em vegetação no município de Montes Claros. Em 2025, foram 679 ocorrências, representando um aumento em relação ao ano anterior. A ocorrência de maior destaque foi um incêndio no Parque Estadual da Lapa Grande, que demandou oito dias de trabalho ininterrupto para a completa extinção. O incêndio atingiu aproximadamente 1.449 hectares de vegetação. Nos seis primeiros meses de 2026, foram registradas 162 ocorrências de incêndios em vegetação.
Segundo a bióloga Vanessa de Andrade Royo, professora do Departamento de Biologia Geral da Unimontes e doutora em Produtos Naturais, as queimadas têm dois tipos de origem. As naturais, causadas principalmente por descargas elétricas (raios) durante tempestades secas. “Essas fazem parte da dinâmica ecológica de alguns ecossistemas, como o Cerrado, onde diversas espécies desenvolveram adaptações ao fogo ao longo de milhares de anos”, explica. A outra situação são as queimadas provocadas pelo ser humano, que ocorrem para limpeza de áreas, renovação de pastagens, desmatamento ou por acidentes e ações criminosas. “Essas são responsáveis pela grande maioria dos incêndios no Brasil e costumam causar impactos muito maiores, pois acontecem com maior frequência, em épocas inadequadas e atingem áreas extensas, impedindo a recuperação natural dos ecossistemas”, afirmou.
As consequências estão em vários âmbitos, segundo a bióloga. Na fauna, pode resultar na morte direta de animais, especialmente aqueles com menor capacidade de fuga, como filhotes, anfíbios, répteis e pequenos mamíferos. “As queimadas destroem ninhos, abrigos e fontes de alimento, forçando o deslocamento da fauna e aumentando o risco de extinção local de algumas espécies”, disse. Na flora, o fogo destrói a cobertura vegetal, reduz a biodiversidade e compromete a regeneração das plantas. “O Cerrado é um dos biomas mais afetados pelo fogo, pois, embora seja tolerante ao fogo ocasional, as queimadas frequentes enfraquecem essas adaptações e favorecem espécies invasoras, reduzindo a diversidade vegetal”, destacou. Além disso, os impactos podem ser sentidos também na saúde da população. “A exposição prolongada à fumaça pode reduzir a qualidade de vida e aumentar os custos para o sistema de saúde. A fumaça das queimadas contém partículas finas e gases tóxicos que afetam principalmente o sistema respiratório e cardiovascular”. Para Vanessa, o conhecimento e a conscientização são aliados para a conservação do meio ambiente e, nesse aspecto, políticas públicas de fiscalização, monitoramento por satélite, brigadas de combate ao fogo e incentivo a práticas agrícolas sustentáveis são ferramentas indispensáveis. “A prevenção é a medida mais eficaz e a população pode contribuir”, recomenda.
ORIENTAÇÕES
Segundo a Lei Federal 9.605/98, que tipifica os crimes ambientais, provocar incêndio em mata ou floresta é crime, com previsão de pena de reclusão de 2 a 4 anos e multa. De acordo com o tenente Kollek Pereira, do 7° BBM, atitudes simples podem evitar incêndios. “Ao fazer a limpeza de lotes ou terrenos vagos, opte sempre pela capina ou roçamento. Nunca utilize o fogo, pois se ele fugir ao controle e atingir uma área com vegetação, pode se tornar um grande incêndio. Ao dirigir em rodovias, não jogue pontas de cigarro para fora de veículos; ao deixar locais de acampamento, certifique-se de que as fogueiras foram totalmente apagadas. Se possível, aplique uma boa quantidade de água ou terra/areia”, orienta.
