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Dia da Consciência Negra é o ano todo

Data é celebrada em 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares

Manoel Freitas
Publicado em 18/11/2022 às 22:34.
 (Manoel Freitas)

(Manoel Freitas)

Vinte de Novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra. Uma data a ser celebrada porque, a despeito de o Brasil ser o segundo país do mundo em população negra (ficando atrás apenas da Nigéria, no continente africano), são nítidos os elevados índices de discriminação racial. 
Mais ainda: dados do IBGE revelam que 54% da população é negra, ou seja, o Brasil é negro por sua própria natureza.  

O dia foi escolhido por ser a data da morte de Zumbi dos Palmares, líder daquele que foi um dos maiores quilombos do país, o Quilombo de Palmares, para celebrar e relembrar a luta dos negros contra a opressão no Brasil. 

Em 13 de maio de 1888, com a assinatura a Lei Áurea, ocorreu a abolição formal da escravidão no Brasil, e, desde então, jamais cessou a busca pela igualdade por direitos dos negros. Em 2003, o Dia Nacional da Consciência Negra foi incluído no calendário escolar, lei que tornou obrigatório o ensino sobre diversas áreas da História e cultura Afro-Brasileira, com ênfase à resistência e ao sofrimento que os negros viveram no Brasil desde a colonização. Durante esse período do Brasil Colonial, quando os escravos começaram a ser introduzidos por volta de 1594, aproximadamente 4,6 milhões de africanos foram trazidos na condição de escravos, de modo que a data tem como objetivo uma reflexão sobre a introdução dos negros na sociedade, até porque as gerações de afro-brasileiros que sucederam à escravidão ainda sofrem diversos níveis de preconceito.

(Manoel Freitas)

(Manoel Freitas)

 Ou seja, a luta contra o racismo e pela igualdade racial continua sendo travada, dia após dia. Então, O Dia Nacional da Consciência Negra e os números que mostram um Brasil em sua maioria negra, precisam ser avivados a todo instante na memória, porque as heranças da escravidão insistem em permanecer vivas entre nós. Um tempo de tratamento degradante, porque tanto os africanos como os negros escravizados nascidos no Brasil viviam em condições absolutamente precárias, submetidos ao trabalho forçado. 

Para trazer mais luz ao tema, enxergar com maior clareza como essa maioria da população sofreu e ainda padece com a lâmina fria do preconceito racial, bem como os avanços obtidos, O NORTE ouviu dois negros mestres e doutores de nossa universidade.

Racismo estrutural: sólida dinâmica social
João Batista de Almeida Costa, graduado em Ciências Sociais pela UFMG, mestre e doutor em Antropologia pela Universidade de Brasília, professor-pesquisador com estudo e pesquisas sobre temáticas culturais vinculadas às populações tradicionais, falou a O NORTE da terça-feira (15) em face à celebração do Dia Nacional da Consciência Negra.  

Indagado se a Antropologia permitiu enxergar com maior profundidade as barreiras e conquistas dos negros, disse que “os obstáculos e avanços dos negros no Brasil, mais que uma questão antropológica, é uma questão sociológica e política, então a Antropologia propiciou-me compreender essas duas dimensões”. 

Questionado se chamar alguém de preto ou negro indica significados distintos, o antropólogo disse que sim, “pois a gramática racial brasileira é bastante complexa e a diversa denominação da pessoa a partir da cor depende da gramática cultural em que se encontre inserida”.  

Exemplificando, ponderou que “em Brejo dos Crioulos, preto é os que foram escravos, crioulos os antepassados que viviam nus no meio da mata existente, negro é um xingamento e, por isso, assumiam ser morenos”.  

Ensinou que “somente depois da conexão deles com o movimento quilombola é que passaram a se assumir como crioulos como algo extremamente positivo e deixaram de se chamar morenos”.
 
CONDIÇÕES PERVERSAS 
Segundo o antropólogo, “o racismo estrutural não foi contido e nem avançou, ele é a dinâmica mais sólida existente na sociedade e no Estado brasileiro”.  

Mais ainda, João Batista acrescentou que “os afro-descendentes, ou negros como categoria social com que são denominados atualmente, sofreram as mais perversas condições de vida: foram sequestrados em seus lugares de origem, trazidos para o novo mundo, vendidos como qualquer mercadoria, foram escravizados, sofreram retaliações durante o período escravagista e permanecem sendo agredidos, cada vez mais, na sociedade atual brasileira”.

Ainda há muito a se fazer

Igualmente para falar sobre os obstáculos e conquistas dos negros na sociedade brasileira, na terça-feira (15), O NORTE ouviu a professora de ensino superior Ângela Cristina Borges, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Unimontes (NEAB).  

(Manoel Freitas/Montagem)

(Manoel Freitas/Montagem)

 Graduada em Filosofia, mestra e doutora em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e pós-doutora pela PUC-MINAS. Indagada se temos muito o quê comemorar no Dia Internacional da Consciência Negra, opinou que “o diálogo proposto por você tem como cerne a temática racial que merece nossa atenção no sentido de ser tratada com rigor científico-acadêmico”. 

Explica a professora Ângela Cristina Borges que “o fato de ser negra em uma escola de elite no Norte de Minas Gerais” direcionou sua atenção para algumas questões: “onde estavam os outros negros; por que a menção a um ou outro escritor importante da nossa literatura quando negro era seguida de: ah! Ele era negro, mas era, como podem ver, muito inteligente! Por que tantas personalidades brancas da literatura, da história e da ciências? Onde estavam as negras e os negros? A resposta dos professores: não há negros pois o negro não podia ou não gostava de estudar”.  

Prosseguindo, lembrou que “diante de respostas como essa a desconfiança era uma realidade, mas me faltava ferramentas para contrapô-las, então leituras solitárias sobre as histórias da América Latina e do Brasil, bem como o curso de Filosofia, me deram as ferramentas iniciais para, no mínimo, entender que ser negra na sociedade brasileira não era nada confortável”. 
 
LEI DE COTAS 
Argumentou ser necessário conscientizar a sociedade brasileira da urgente necessidade de manter a lei de cotas, “pois que essa possibilita à negra e ao negro o acesso às universidades públicas, pesquisando e produzindo conhecimento sobre o nosso povo e como a cultura afro-brasileira pode colaborar para a construção de um mundo mais justo”.  

Tornou claro que “essas são ações de extrema importância para o desenvolvimento de uma consciência racial coletiva que pode diminuir assimetrias raciais, possibilitar diálogos e a interculturalidade”.

Ainda há muito a fazer, observa, ressaltando que a escola norte mineira se encontra em um espaço onde mais de 50% da população é negra.  

“Ao resistir à implemen-tação efetiva da Lei 11.645/2008 que torna obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, nossa escola reproduz assimetrias e alimenta as várias formas de racismo, pois trata uma questão de identidade nacional como a cultura afro-brasileira, da mesma forma como trata o halloween estadunidense”.

No seu modo de entender, “tal atitude nada contribui para a instituição de uma cultura da paz e muito menos do erguimento de uma consciência negra coletiva; mas não se pode deixar de ressaltar que, cada vez mais, jovens negras e negros estão se autodeclarando, o que muito contribui para o alargamento de uma consciência racial negra nesta região”.

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