No último sábado (28), o Córrego das Melancias transbordou e provocou alagamentos e transtornos em Montes Claros. A força da chuva também agravou um problema já anunciado: em dezembro de 2024, o jornal O NORTE havia alertado para o risco de desabamento na Avenida José Corrêa Machado. Neste sábado, a estrutura cedeu e o trecho precisou ser interditado para uma intervenção emergencial. Outros registros de alagamento ocorreram nos bairros São José, Morada do Parque, Santa Rita, Raul Lourenço e Jardim Palmeiras.
O professor Ricardo Henrique Palhares, do Departamento de Geociências/Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Estadual de Montes Claros (PPGEO/UNIMONTES), explica que as chuvas intensas saturam o solo, aumentam o seu peso e reduzem a resistência, evidenciando a vulnerabilidade da infraestrutura urbana e a importância da prevenção de desastres naturais. “Os impactos observados, como deslizamentos, rompimento de estruturas e danos ao asfalto, especialmente na avenida José Corrêa Machado, ressaltam a necessidade de um planejamento urbano mais eficaz e de medidas de mitigação de riscos”, disse.
Conforme Ricardo, a drenagem adequada do solo é essencial para evitar o acúmulo de água e reduzir a erosão. “A construção de canais de drenagem, a implantação de sistemas de captação de água de chuva e a utilização de materiais permeáveis podem ajudar a melhorar a infiltração da água no solo e a reduzir o escoamento superficial”, frisou. Outro ponto fundamental é a recuperação da vegetação nativa, que ajuda a diminuir a erosão, fenômeno que pode desencadear o rompimento de estruturas, provocar deslizamentos, sobretudo em encostas e taludes, comprometendo a estabilidade das edificações.
Ainda segundo o profissional, no asfalto, a infiltração de água nas camadas inferiores causa perda de sustentação, formação de buracos e rachaduras. O tráfego constante de veículos acelera esse processo e torna as vias mais perigosas, dificultando a mobilidade urbana. “Os danos causados pela chuva na cidade destacam a importância de uma abordagem interdisciplinar que envolva planejamento urbano, engenharia, geologia e gestão de riscos”, conclui o professor.
Procurada, a Prefeitura de Montes Claros informou que o rompimento na Avenida José Corrêa Machado teria sido provocado pela queda de uma árvore e que o trecho é monitorado. Disse ainda que realizou intervenção provisória e que abriu licitação para a recuperação definitiva. Sobre o Córrego das Melancias, afirmou que o canal está desobstruído, que o volume incomum de chuvas causou o transbordamento e que o desassoreamento da Lagoa do Interlagos deve reduzir os impactos.
REGIÃO
Em Espinosa, choveu 130 mm entre o último sábado (28) e domingo (1º) e, conforme informações da prefeitura do município, a ocorrência deixou um saldo de 60 famílias desabrigadas, 490 desalojadas e cerca de 3.500 pessoas foram afetadas pelo evento climático. O 6º Pelotão do Corpo de Bombeiros de Janaúba foi acionado para atender a cidade, em parceria com instituições de apoio como Defesa Civil e Polícia Militar.
Nesta última segunda-feira (2), a Defesa Civil informou que foram registradas 405 residências alagadas no município. Houve danos materiais, mas as pessoas foram transportadas em segurança. O nível da água está baixando e algumas famílias retornam gradativamente às suas residências.
Em Porteirinha, a Barragem de Lages, na zona rural do município, sofreu danos estruturais e levou as autoridades a atuar com a possibilidade de rompimento. Segundo o 7° BBM de Montes Claros, foi realizada, de maneira preventiva, a evacuação da área delimitada como risco, próxima à Barragem. Em caso de rompimento, 46 residências e 77 moradores seriam atingidos. “Ao todo, 114 pessoas foram removidas preventivamente, sendo 77 moradores da zona crítica e 37 moradores do entorno da área delimitada, por medida de segurança adicional. As equipes acessaram todas as 46 residências situadas na zona crítica, realizando orientações e evacuações necessárias”, informou o Corpo de Bombeiros. Das 114 pessoas retiradas da área de risco, 13 foram encaminhadas a abrigos provisórios disponibilizados pela Prefeitura de Porteirinha e 101 estão acolhidas em residências de familiares ou terceiros, fora da zona crítica.
Nesta segunda, seria realizada na parte da tarde, avaliação técnica do local, a fim de embasar os próximos passos. Em Mato Verde, diversas ruas foram alagadas e os órgãos de segurança estiveram no local. O volume das águas, conforme o CB, começou a baixar.

