
Nesta semana, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) classificou como moderada a possibilidade de ocorrência de inundações nas Regiões Geográficas Intermediárias de Montes Claros (MG) e nos municípios localizados às margens do rio São Francisco e de seus afluentes.
“Choveu 169,2 mm neste mês. A chuva média de janeiro é de 126 mm. Ou seja, choveu 34% acima do esperado. A partir do dia 30 de janeiro, teremos pancadas mais isoladas”, destaca o meteorologista Ruibran dos Reis. Em Montes Claros, a probabilidade de mais chuva traz preocupação a moradores de bairros e avenidas frequentemente afetados pelas enxurradas e alagamentos, como São José, Canelas, Morada do Parque, Avenida Antônio Lafetá Rebello, Dulce Sarmento, entre outras, com ausência de drenagem ou drenagem ineficiente.
O professor e pesquisador de Recursos Hídricos e Ambientais do Instituto de Ciências Agrárias da UFMG, em Montes Claros, Flávio Pimenta de Figueiredo, explica que o Norte de Minas é caracterizado por áreas cársticas bastante arenosas — áreas em que características naturais como fissuras e torres foram criadas pela erosão que fica abaixo delas — e isso aumenta a possibilidade de deslizamentos.
“Nos últimos dias, as chuvas foram intensas, porém, intensas em pouco tempo, que foi o agravante”, diz Flávio, salientando que uma chuva de 100 mm que cai em 10h ou 20h é diferente de uma chuva de 100 mm que cai em 2h ou 3h. “Então, o que a gente vê é que não existe uma infraestrutura de drenagem eficiente. A bacia hidrográfica onde o município se localiza é cheia de impactos, de ações antrópicas, que fazem com que a água escoe, ao invés de infiltrar. Esse escoamento superficial, com uma chuva de alta intensidade, promove danos, alagamentos e destruição”, afirma.
O problema, conforme o professor, é crônico e soluções pontuais já não atingem o fim desejado. Para solucionar o problema de vez, o professor entende que é preciso considerar os aspectos da bacia hidrográfica, da preservação das nascentes, que, segundo observa, estão todas impactadas, e o cuidado com a zona urbana. “Se você observar uma chuva intensa no entorno de Montes Claros, a água está escorrendo e causando os problemas evidentes. Como se não bastasse, na zona urbana também ocorre a falta de infiltração, sem planejamento, as pracinhas todas cimentadas, enfim, não estruturam, não pensam no verde para possibilitar que essa chuva, ao chegar, infiltre, então ela tende a escoar novamente e a novela vai se arrastar”.
O professor pontua que a origem dos impactos está na falta de conservação das bocas de lobo, na ausência de conscientização ambiental, de limpeza e no crescimento desordenado, fatores que induzem à instabilidade. “Se transformarmos Montes Claros numa selva de cimento, de asfalto, com certeza teremos esses problemas crônicos. A instabilidade se torna grande também com essa chuva, em função das serras e morros que circundam a cidade. Se começarem a fazer sítios, loteamentos, vamos ter problemas, porque as árvores e o meio ambiente têm sua função. O solo recebe a chuva e, para infiltrar, precisa da cobertura vegetal”, conclui.
BARRAGEM
Sobre o incidente ocorrido no último domingo (25), em uma barragem localizada entre Congonhas e Ouro Preto, quando houve o rompimento de um dique, Flávio destaca que o Norte de Minas não será afetado diretamente, mas a situação serve de alerta, pois Montes Claros está no foco, como capital da região. “Somos uma cidade grande, com uma responsabilidade enorme, e a mentalidade de preservação ambiental, associada à questão de drenagem e aos estudos hidrológicos, é salutar. As pessoas que estão no poder precisam ter consciência de que é necessário profissionalizar as iniciativas, pois envolve vidas. O recado é preservar nossos rios e permitir que as águas da chuva se infiltrem, dando sequência ao ciclo hidrológico”, finaliza.
