Agosto lilás

Casa deixa de ser refúgio e registra 5,4 mil ocorrências em Montes Claros e região

Christine Antonini
chrys_antonini@hotmail.com
Publicado em 27/08/2026 às 20:38.

A casa, que deveria ser sinônimo de segurança, acolhimento e proteção, muitas vezes se transforma no cenário de medo e violência para milhares de mulheres. Os números da violência doméstica mostram que, para muitas vítimas, o perigo não está na rua ou em um lugar desconhecido, mas no próprio lar e, frequentemente, praticado por alguém próximo.

Dados do 11º Departamento de Polícia Civil de Montes Claros (11º DEPPC) mostram que a violência doméstica continua presente expressivamente na região. Entre janeiro e julho de 2026, foram registrados 5.459 casos nas quatro Delegacias Regionais de Polícia Civil que integram o departamento — no mesmo período de 2025, foram 5.442 registros.

Embora a variação no total tenha sido pequena, os números revelam a dimensão do problema. Em 2026, foram registrados 829 casos em janeiro, 749 em fevereiro, 838 em março, 748 em abril, 813 em maio, 741 em junho e outros 741 em julho. Março foi o mês com maior número de ocorrências no período.

A realidade também aparece nos municípios-sede das regionais. Montes Claros concentrou 1.769 registros em 2026, seguido por Janaúba, com 316; Januária, com 229; e Taiobeiras, com 163. Somados, os quatro municípios registraram 2.477 ocorrências no período analisado.

É justamente para chamar atenção para essa realidade que o Agosto Lilás reforça, todos os anos, a necessidade de combater a violência contra a mulher e ampliar a conscientização sobre os mecanismos de proteção. A campanha também busca estimular a denúncia e mostrar às vítimas que elas não estão sozinhas.

“Mais do que números, cada registro representa uma mulher que precisou procurar ajuda depois de vivenciar uma situação de violência. São histórias marcadas por agressões físicas, ameaças, violência psicológica, constrangimentos e outras formas de abuso que podem permanecer escondidas durante anos por medo, dependência financeira, vergonha ou pela esperança de que o agressor mude”, destaca a coordenadora do Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) em Montes Claros, Débura Ribeiro.

O Cram atende as mulheres em situação de violência, oferecendo atendimento e acompanhamento psicológico e social — realizado por equipe multidisciplinar —, auxílio na obtenção do apoio jurídico, orientação para acesso a programas de educação e para inserção no mercado de trabalho. Atualmente, a unidade de Montes Claros assiste 289 mulheres, sendo 47 pela psicologia e demais acompanhadas pelas assistentes sociais.

Ainda segundo a coordenadora, alguns fatores dificultam que as vítimas deixem seus companheiros no primeiro ato de agressão, como a dependência emocional, ameaças e não ter autonomia financeira, principalmente quando têm filhos envolvidos.

“O enfrentamento da violência doméstica depende não apenas da denúncia, mas de uma rede capaz de acolher a mulher, garantir proteção e interromper o ciclo de violência. Por isso, falar sobre o problema é também uma forma de prevenção. Quanto mais a sociedade reconhece os sinais de abuso e entende que nenhuma forma de violência deve ser naturalizada, maiores são as possibilidades de romper o silêncio”, conclui Débura Ribeiro.

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