SÃO JOÃO DAS MISSÕES – Os VI Jogos Indígenas de Minas foram abertos com uma comemoração extra: no dia 28 de dezembro, antes mesmo do início das competições, a tribo Pataxó Açucena recebeu a notícia da publicação do Decreto 47.573, do governo de Minas, que delimita as terras da etnia e declara de interesse social para fins de regularização fundiária.

É o primeiro Estado a reconhecer e delimitar territórios de povos indígenas. A novidade motivou o primeiro grande ritual na aldeia Xakriabá, anfitriã dos atletas, do qual participaram cinco povos, numa clara demonstração de que a luta pelos territórios é a principal demanda das nações indígenas junto ao poder público.

Nesta edição, O NORTE finaliza a série de cinco reportagens especiais sobre os jogos e as tribos que deles participaram. A competição, idealizada pelo Conselho dos Povos Indígenas de Minas Gerais, Prefeitura de São João das Missões e Comitê Intertribal de Memória e Ciência Indígena, mostrou que, mais que o triunfo nas modalidades esportivas, as nações Xakriabá, Pataxó Carmésia, Krenak, Xucuru Kariri e Pataxó Açucena se reuniram na Aldeia Barreiro Preto, no dizer do prefeito José Nunes, irmão do cacique Domingos Xakriabá, “para celebrar a união entre os povos, o verdadeiro mote do evento”.

“Os povos entrelaçaram suas almas, num ritual que cobriu a todos com manto de múltiplas cores, adornado por rico artesanato, pela pintura corporal de crianças, jovens e adultos, com muito som, riso, ritmo e movimento”, disse o pajé Vicente, orientador espiritual da tribo Xakriabá.

Ele afirmou ter ficado emocionado ao ver que a cultura e as tradições estão sendo repassadas de pai para filho e “que todo dia, realmente, é dia de índio”.

Os reconhecimentos da identidade étnica e da valorização dos costumes estavam presentes nas danças, nas competições, nas vestimentas, processo de fortalecimento da cultura indígena no qual as crianças têm papel cada vez mais relevante.

“Momento único para todas as etnias, porque os jogos terminaram, mas ficou como legado a harmonia entre os povos de Minas”, completou o prefeito e também professor, José Nunes, para o qual todos os competidores voltaram para as aldeias com sentimento de vitória.

Portanto, a Aldeia Barreiro Preto, nesse período, não foi apenas arena para a realização de sete competições esportivas. Antes, durante e depois da disputa de cada modalidade, indígenas cantavam e se abraçavam, rituais que independiam dos resultados.

Para a comissão organizadora, composta por profissionais das secretarias de Estado de Esportes, Educação, Cultura, Direitos Humanos e Participação Social e Cidadania, os jogos também foram um grande aprendizado por democratizarem a prática esportiva, promoverem as articulações e valorizarem a identidade cultural dos povos indígenas de Minas Gerais.

A saga por terras dos Xucuru Kariri
Última nação indígena a se estabelecer em Minas Gerais e ter o território demarcado pela Fundação Nacional do Índio (Funai), o povo Xucuru Kariri chamou atenção durante os VI Jogos Indígenas, em São João das Missões. Tanto pela competitividade – levada em conta sua pouca população, de menos de 350 índios – como pela beleza dos rituais, que mesmo na véspera de provas importantes duravam mais de seis horas.

Em um universo de aproximadamente 900 indígenas, de 305 povos distintos, segundo dados do IBGE, os Xucuru Kariri despertaram a atenção das autoridades em 2015 com a morte do então cacique José Sátiro, muito respeitado pelas lideranças de outras etnias, mesmo tendo chegado a Minas em 2005, depois de uma longa jornada que começou em Palmeira dos Índios, Alagoas. Em Brasília, fez história montando acampamento na Funai, na Câmara e no Senado Federal.

O posto foi assumido pelo filho Thyeru Jal, que disse a O NORTE que a grande luta dos Xucuru continua sendo pela terra. “Ocupamos apenas 101 hectares, muito pouco para uma nação indígena”, disse o cacique Thyeru, que também disputou o torneio de futebol ao lado do parente José Sátiro do Nascimento, o Índio, campeão mundial de clubes pelo Corinthians.
 
ESPORTE PARA UNIR
“O esporte deve ser sempre sinônimo de celebração e união entre os povos, porque nós, Xucuru Kariri, bem sabemos o que é a luta pelo território até chegar a Minas, depois de não aceitarmos terras que a Funai escolheu sem a nossa participação”, conta. Na Bahia, fincaram suas aldeias em Ibotirama e depois em Glória.

Thyeru Jal discursou em nome dos demais caciques na abertura, na noite cultural e no fechamento dos VI Jogos dos Povos Indígenas de Minas Gerais. “Somente caminhando juntos é que os índios se fortalecem”, destacou.

O nome do pai de Thyeru, o ex-cacique José Sátiro, foi citado várias vezes, não apenas por ele, mas como pelas demais lideranças indígenas, como o prefeito índio de São João das Missões, José Nunes, e, principalmente, pelo cacique Domingos Nunes que, emocionado, o abraçou confessando que “aprendi muito com seu pai ao longo de toda minha vida”.