Minas pode ter pelo menos mais 75 mil pessoas contaminadas por Covid-19 e que não tiveram confirmação da doença por exames em laboratório. A estimativa feita pelo próprio governo do Estado é de um doente testado positivo para cada dez assintomáticos – o que elevaria as atuais 7,5 mil notificações para 82,5 mil. Apesar de ser um problema mundial, pela dificuldade de acesso aos insumos, especialistas alertam que a subnotificação é um entrave para o combate à pandemia.

Sem saber onde e como o contágio está ocorrendo, o tamanho exato do problema acaba desconhecido, afirma o infectologista Unaí Tupinambás. A solução seria realizar mais testes, principalmente em todos que buscam o socorro médico. “Só assim poderemos agir de forma mais certeira”, destaca.

O médico considera o número de exames em Minas muito baixo. Como resultado, segundo ele, não é possível reduzir o contágio, uma vez que não se sabe onde os infectados estão. Por haver boa parte de assintomáticos, medidas como isolamento social deveriam ser rigorosamente implantadas.

Subsecretário de Estado de Vigilância em Saúde, Dario Ramalho afirma que a quantidade de testes aplicados está compatível com os pacientes em estado crítico e óbitos. O protocolo atual preconiza o exame apenas para essas situações e para profissionais de saúde e da segurança pública, detentos e pessoas em asilos.

Cenário que pode mudar. “À medida que a epidemia avança, é natural que se tenha mais casos graves e que a testagem aumente”, frisou o subsecretário.

Mas um crescimento da testagem não significa que toda a população será alvo do rastreio. Segundo Dario, há “dificuldade de insumos, de disponibilidade e valor de aquisição” desses materiais.

“Numa lógica de vigilância, é natural supor uma subnotifica-ção. Isso acontece com qualquer doença, e não é diferente com a Covid, transmitida especialmente pelos assintomáticos”, complementa.

Dario Ramalho diz, ainda, que justamente por ser uma doença com grande grau de assintomáticos é que ela tornou-se um grande desafio. 

“Tem uma porcentagem dos pacientes transmitindo que não vão apresentar febre e, portanto, não são passíveis de detecção com termômetros”.

Método da ‘vigilância participativa’ pode dar dimensão da pandemia
Em meio à subno-tificação da Covid-19, especialistas vêm propondo alternativas para prever a real situação da doença. É o que busca a vigilância participativa, que consiste em análises a partir de relatos de sintomas de voluntários.

O método é utilizado pelo Movimento Brasil Sem Corona. À frente da iniciativa, o epidemiologista Onicio Leal afirma que a falta de dados sobre infectados não é um problema, mas uma característica dos sistema de vigilância em saúde de todo o mundo. “Existe uma lacuna entre o indivíduo adoecer e ser contabilizado. Nem sempre essa pessoa vai chegar ao sistema de saúde”.

Doutor em Saúde Pública e pesquisador da Universidade de Zurique, Onicio afirma que a vigilância participativa tenta resgatar números que acabam “perdidos”. Segundo o especialista, dois estudos sobre o tema, publicados em maio em revistas científicas, mostraram que o método pode trazer a dimensão real da epidemia.

Para ser vigilância participativa, é preciso ter uma coleta ampla de dados por meio de alguma tecnologia. O cidadão informa se ele tem algum sinal de Covid-19. A informação é analisada por padrões, como grupos de pessoas com sintomas semelhantes, em um mesmo espaço e ao mesmo tempo. “Os dados ajudam a entender quais as áreas de risco na cidade e a antecipação de medidas, como intervenção do território”, destaca o pesquisador.

Onicio Leal diz que a vigilância participativa pode resultar em economia. De posse das informações, é possível direcionar testagens, tratamentos e recomendações de isolamento social.

(Com Cinthya Oliveira)