O auxiliar de serviços gerais Leandro de Oliveira recorre à calculadora para entender o porquê de o salário mínimo ter ultrapassado pela primeira vez a barreira dos R$ 1 mil na era do Plano Real, mas seu novo vencimento, agora de R$ 1.039, não será suficiente para pagar as contas e despesas cotidianas na comparação com janeiro de 2019, quando o piso nacional era de R$ 998.

“Quem vive de salário não consegue comprar carne, por exemplo. E cada vez que passa fica mais difícil. A gente pesquisa bastante e tem produtos que não tem condição de comprar”, lamenta o trabalhador.

O reajuste do salário mínimo, de R$ 998 para R$ 1.039, não renderá ganho real aos assalariados de Montes Claros que recebem o piso, como Leandro.

O aumento foi calculado com base no Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que ficou em 4,1% em 2019. Mas a inflação em Montes Claros fechou o ano em 5,08% – ou seja, o dragão comeu todo o reajuste do governo federal.

A inflação na maior cidade do Norte de Minas extrapolou a projeção de 4,32% e o índice ficou acima do nacional (4,1%).
 
DEZEMBRO CRUEL
O maior peso recaiu sobre a taxa de dezembro, considerada a mais alta dos últimos cinco anos (de 2015 a 2019) e a de maior variação dos últimos 19 meses, segundo levantamento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), do Departamento de Economia da Unimontes.

A taxa de 1,19% no mês passado sofreu pressão principalmente da carne bovina, aves, carne suína e pescados, além de tomate, batata e banana.

A saída encontrada pela agente de saúde Jaqueline Santos Pereira Magalhães é produzir parte dos alimentos que a família consome em casa. “O que a gente ganha dá apenas para comer. Como moro em área rural, a gente aproveita para plantar alguma coisa, que no fim vai ajudar na despesa da casa”, conta a servidora.
 
PESO NAS CONTAS
Parte dos gastos do dia a dia de Jaqueline e de vários trabalhadores em Montes Claros que recebem o mínimo decolaram em 2019, atingindo percentuais bem maiores.

O preço do gás de cozinha, por exemplo, registrou alta de 5% somente em dezembro. O custo do etanol saltou 5,53% no mesmo período e, o da gasolina, aumentou 2,10%.

As carnes saíram do cardápio do montes-clarense, e quem não abriu mão do produto à mesa, teve que reequilibrar o orçamento. Somente em dezembro, a carne de boi teve um reajuste médio de 25%. Esse aumento causa impacto também no preço da carne suína (7,41%), aves (9,42%) e ovos (5,35%). Um gasto a mais que corrói os meros 4,1% de reajuste do salário mínimo.