O preço da carne bovina está salgado nos açougues de Montes Claros. Os consumidores já estão sentindo no bolso o aumento de praticamente 50% registrado nas últimas semanas. O índice que eles percebem é muito maior que o registrado pelo Índice de Preços ao Consumidor, do Departamento de Economia da Unimontes (IPC).

A pesquisa revela uma alta considerável das carnes bovina, de aves e suína neste mês em relação a outubro. Os maiores aumentos foram registrados na carne bovina (7,08%), pescados (5,08%) e carne avícola (3,09%).

O motivo seria a seca prolongada na região, que elevou o custo de criação do gado, a alta do preço dos insumos e também o impacto da maior importação de carne brasileira pelos chineses, valorizada pela alta do dólar.

Os produtores preferem negociar o alimento para o exterior, que paga em dólar, do que no mercado doméstico, onde o real perde força. Ainda mais porque a China teve boa parte do rebanho de porco (cerca de 40%) dizimada este ano pela peste suína africana.

O crescimento do preço da carne bovina vem como uma bola de neve, começando ainda no pasto quase inexistente nas fazendas e com a escassez de água para matar a sede dos animais. Devido à situação crítica, os fazendeiros estão comprando menos animais para dar conta de manter o rebanho.

Também estão tendo que viabilizar insumos e, com isso, o preço da arroba do boi aumentou 53,57% em seis meses. É o que aponta um dos maiores criadores de gado do Norte de Minas, Otaviano Pires Júnior.

“Era para o preço chegar ao supermercado muito mais caro, se formos comparar o gasto que estamos tendo. Antes, comprava o gado por R$ 140 a arroba (equivalente a 15 quilos), hoje está R$ 215. A seca ‘quebrou’ nossas pernas. A falta de água faz com que o homem do campo fique cada vez mais empobrecido”, destaca Otaviano, que é diretor de Pecuária Leiteira da Sociedade Rural de Montes Claros.

Segundo ele, o preço dos insumos subiu 30%, enquanto o valor da cabeça de gado está até 50% mais caro.
 
CARO E EM FALTA 
Se no campo a situação não é das melhores, nos frigoríferos e açougues a tendência é acompanhar o crescimento dos preços. O açougueiro João de Deus enfrenta o alto preço do boi e também a falta dele. 

“Essa semana tive que procurar três bois para comprar, pois quase não estamos achando. Para não perder cliente, estou ganhando pouco em cima do produto vendido. Esse foi o jeito que encontrei. Nunca vi o preço da carne subir tanto em pouco tempo. Vendia o lagarto por R$ 25 o quilo e, atualmente, ele está a R$ 35 (alta de 40%)”, pontua.

O peso do aumento dos preços deixou a sacola de compras da aposentada Maria de Lourdes mais leve. Antes, ela comprava 15 quilos de diversos tipos de carne para abastecer a família. Na última feira teve que comprar oito quilos.

Para não deixar a família sem a proteína animal, Malvina Pereira Santos está driblando a alta do boi colocando na sacola outros tipos de carne, como o peixe e frango. “Até a carne de segunda está cara. Então, levo um pouco de carne, frango, peixe e até ovos. Assim consigo fazer a feira sem sair do meu orçamento”, afirma. 

A economista e coordenadora do IPC, Vânia Villas Bôas, acredita que a demanda aquecida das festas de fim de ano deve manter esse cenário por mais tempo. “Isso nos permite inferir que o churrasquinho do montes-clarense ficará com um preço bem salgado este fim de ano”, avalia.