Em 72 anos de existência, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) tem, pela primeira vez na história, uma mulher na direção. A escolhida pelo governo Zema foi a administradora pública Luisa Barreto. Formada em Administração Pública e pós-graduada em Gestão Estratégica pela Fundação João Pinheiro, ela foi secretária-adjunta de Planejamento de Minas Gerais entre 2019 e 2020 e saiu do cargo para concorrer à Prefeitura de Belo Horizonte nas eleições deste ano pelo PSDB.

Servidora da Seplag desde 2008, Luisa coordenou a elaboração do plano de governo do então candidato ao governo estadual, o senador Antonio Anastasia. Além disso, a nova presidente da Emater-MG também foi responsável pela elaboração do plano de governo de João Leite à PBH na campanha eleitoral de 2016. Ele chegou ao segundo turno, mas perdeu para Alexandre Kalil. 

Tida no meio político como um nome técnico, embora fortemente ligado ao ninho tucano, Luisa Barreto teve a nomeação para a presidência da Emater duramente criticada por alguns deputados estaduais que estranharam o fato de o governador ter trocado um profissional de carreira – Gustavo Laterza de Deus ocupava o cargo desde abril do ano passado – por um quadro que não teria experiência no setor.

Além disso, deputados veem na mudança um possível passo para a fusão entre a empresa e a Epamig. 

Alheia às críticas, Luisa Barreto afirma que ser a primeira mulher na presidência da Emater “é um orgulho enorme e um desafio que encara com muita responsabilidade”.

Ao falar sobre a possibilidade de fusão entre a Emater-MG e Epamig, Luisa Barreto acredita que a proposta “é idealizada tendo como base a compreensão de que os serviços prestados aos produtores rurais podem ser melhorados com essa maior integração, que significa basicamente levar as pesquisas de ponta que hoje são desenvolvidas pela Epamig de forma mais rápida e direta ao campo”. 

Como encarar o desafio de ser a primeira mulher à frente da Emater?
Ser a primeira mulher na presidência é um orgulho enorme e um desafio que encaro com muita responsabilidade. A Emater presta um serviço fundamental ao setor agropecuário mineiro, em especial aos agricultores familiares e quero nesta função contribuir para que a empresa preste um serviço cada vez melhor. Sabemos que as mulheres têm cada vez mais ocupado importantes espaços no setor agropecuário. Entendo como muito simbólico termos uma mulher pela primeira vez neste posto.
 
A Emater tem como tradição dar amparo e suporte tecnológico aos pequenos produtores, em especial à produção familiar. Este vai continuar sendo o foco de ação durante a sua gestão?
Sim, o foco não muda, ela é uma empresa pública e é muito importante que esse esforço governamental seja direcionado a quem mais precisa. Vamos procurar trazer cada vez mais inovação a essa atividade e fazer com que esse serviço possa ser fortalecido por meio de uma gestão eficiente. Vamos fechar o ano com cerca de 2 milhões de atendimentos prestados, em sua maioria para agricultores familiares. Mantemos mais de 200 mil Declarações de Aptidão do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar) ativas, isso dá acesso aos agricultores a várias políticas públicas, como, por exemplo, ao Crédito Rural. Em plena pandemia, a Emater operacionalizou cerca de R$ 2,7 bilhões em crédito rural pelo Pronaf. 
 
Ainda durante a campanha, o governador Romeu Zema chegou a falar em extinguir a Emater. Deputados estaduais chegaram a criticar a sua nomeação e dizem que é mais um passo para a fusão da Emater com a Epamig. A senhora vê a empresa como pilar estratégico para o desenvolvimento do agronegócio em Minas? 
Não tenho dúvida da importância dos serviços prestados pela Emater e do seu papel estratégico para o desenvolvimento do agronegócio em Minas. Por isso, a intenção, durante meu trabalho e a minha gestão, de fortalecer essa atuação, para que Minas possa cada vez mais se desenvolver no agro, que já representa 36% do PIB estadual. A agricultura familiar tem papel relevante no setor, sobretudo na produção dos alimentos que chegam às nossas mesas, correspondendo, por exemplo, por 58% da produção de café, 68% do leite, para citar alguns destaques. Sem falar na geração de trabalho e renda, uma vez que a agricultura familiar é responsável por mais de 59% do pessoal ocupado na agropecuária em Minas. Portanto, o agro, tenho certeza, pode ser cada vez mais um fator de desenvolvimento para as famílias e a Emater tem muito a contribuir neste aspecto.
 
Qual será a sua primeira linha de ação frente à Emater?
Um primeiro foco que considero prioritário é trabalhar junto ao programa que já existe, que é o Emater 4.0, que busca trazer inovação para dentro da empresa e também para os serviços prestados diretamente ao produtor rural. É fundamental que a gente invista em tecnologia e inovação, para garantir que a empresa tenha uma gestão mais eficiente, mas que também preste um serviço mais facilitado, ágil e de mais qualidade na ponta. Então, essa é a linha principal de atuação, mas, como todos sabem, existe também um projeto, ainda em discussão inicial dentro do governo, de integração das empresas Emater e Epamig, que é idealizado tendo como base a compreensão de que os serviços prestados aos produtores rurais podem ser melhorados com essa maior integração, que significa basicamente levar as pesquisas de ponta que hoje são desenvolvidas pela Epamig de forma mais rápida e direta ao campo e também ter o foco da Epamig sendo, em boa medida, direcionado pelas dores e dificuldades que os produtores rurais sentem na pele durante as atividades práticas. Com isso, acreditamos que pode sim haver qualificação dos serviços prestados, com a preservação das atividades das duas empresas e fortalecimento das mesmas. É claro que este é um projeto complexo, que vai ser conduzido de forma absolutamente aberta, participativa, com muito diálogo e muita transparência. As discussões são ainda iniciais e é fundamental que a gente tenha a participação de todos os funcionários da Emater, da Epamig, para que tenhamos o projeto maduro, para posterior discussão junto à Assembleia Legislativa. 

Estamos vivendo em tempos de pandemia, onde a produção agrícola foi o único setor produtivo em Minas Gerais que tem projeção de crescimento (9,8% de acordo com levantamento feito pela Fiemg) mesmo em meio a toda a crise econômica vivida este ano. Como a Emater pode ajudar na manutenção deste patamar de crescimento? 
Não há dúvidas que a gente tem espaço para a expansão da produção agropecuária, tanto para o mercado interno quanto para o mercado externo e isso pode ser ainda aprimorado e ampliado levando ao campo as melhores técnicas, como a Emater tem feito, levando mais tecnologia, mais inovação. E que a gente consiga orientar aos produtores, dando a eles também melhores condições de comercialização dos seus produtos, agregando mais valor à sua produção, permitindo assim patamares cada vez mais elevados de crescimento. Temos uma atuação presente em 93% dos municípios mineiros. É uma atuação abrangente e diversificada, como Minas exige, por sua dimensão, peculiaridades regionais e diversidade produtiva. Dos 63 produtos pesquisados pelo IBGE, 53 são produzidos no Estado. E como eu já citei antes, grande parte desta produção vem da Agricultura Familiar. Nós somos a maior bacia leiteira do país e 68% do leite é produzido por agricultores familiares. O café, um dos principais produtos da nossa pauta de exportações e de sustentação da nossa economia, 58% vêm da agricultura familiar, público prioritário da Emater. Estudos apontam que esses agricultores, quando têm acesso à assistência técnica e extensão rural, alcançam renda até quatro vezes maior do que aqueles que não têm o serviço. 

 
Ainda falando de pandemia, o que a Emater tem feito para auxiliar os produtores rurais durante este período de Covid?
Mesmo em pandemia, a empresa não parou um só dia, reinventando a forma de atender, em função do isolamento social, usando novas ferramentas, para uma ATER digital e auxiliando os produtores que sofreram impactos com a pandemia. Com orientação e articulação da Emater-MG, foram organizadas feiras virtuais, sistemas de delivery ou comercialização em plataformas digitais em aproximadamente 60 municípios. Muitos produtores relataram que as vendas cresceram nessas plataformas e esse é um caminho sem volta. A empresa realizou um monitoramento periódico de abastecimento e comercialização dos produtos agropecuários, abrangendo mais de 85% dos municípios mineiros, o que balizou as ações do Estado e políticas públicas neste contexto de pandemia. Até o momento, foram 28 relatórios gerados. 
Realizamos os concursos estaduais de qualidade do Café e do Queijo Minas Artesanal, edições comemorativas pelos 300 anos de Minas. Realizamos campanha junto aos gestores para manutenção do Pnae, o Programa Nacional de Alimentação Escolar, mesmo com a suspensão das aulas presenciais, para que as cestas com alimentos da agricultura familiar pudessem ser entregues diretamente às famílias dos alunos matriculados nas escolas e que têm na merenda, muitas vezes, sua principal refeição. Foram feitas cartilhas para orientar produtores e gestores na realização de feiras, considerando as questões de saúde. Foram muitas ações, impossível citar todas. 
 
Já existe algum planejamento em curso para ações efetivas da Emater junto aos produtores para o momento pós-pandemia?
Vários projetos estão em desenvolvimento dentro da empresa. Especialmente voltados para inovação, no âmbito do programa Emater 4.0, dentre eles o extensionista digital, para agregar aos serviços agilidade, sem nunca abrir mão do trabalho presencial, do extensionista em campo; plataforma de comercialização on-line, dos produtos da agricultura familiar, etc. Mas, pensando no pós-pandemia, temos projeto voltado para a área de turismo rural, que está no escopo de atuação da empresa. A Emater-MG também fomenta no campo atividades não agrícolas, com potencial de geração de renda para as famílias rurais, como artesanato e turismo rural. Desta forma, o projeto prevê a promoção de lugares, fazeres, já que com a pandemia, a dificuldade de circulação das pessoas, essas atividades foram afetadas. Estamos estudando a estruturação deste projeto, com parceiros, que tem potencial para estimular as economias locais.