Minas Gerais caminha na direção de ser o primeiro Estado brasileiro a obter da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) o selo de Patrimônio Agrícola Mundial, por meio da candidatura da coleta de flores sempre-vivas na Serra Geral de Minas, no Vale do Jequitinhonha.

Para proteger a flor, especialmente as espécies ameaçadas de extinção, bem como valorizar a atividade milenar que alimenta 20 comunidades de catadores na região – que se intitulam guardiões tanto das sementes, das flores, como de outras plantas agrícolas tradicionais ao longo da Serra Geral de Minas –, foi criado em dezembro de 2002 o Parque Nacional das Sempre-Vivas.

Com área de 124 mil hectares, o território é comum aos municípios de Bocaiuva, Buenópolis, Diamantina e Olhos D’Água. Nele estão concentradas 70% das sempre-vivas do planeta, integrando a Reserva da Biosfera do Espinhaço.

Para conhecer essa riqueza das montanhas de Minas, a convite do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a reportagem de O NORTE percorreu os campos de altitude do Parque Nacional das Sempre-Vivas de 17 a 24 de maio. Todas as belezas e riquezas registradas nessa jornada serão mostradas em uma série especial que começa nesta edição e segue até sábado.

Pesquisadores das universidades de São Paulo (USP), da Estadual Paulista (Unesp) e da Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) participaram dessa maratona, na qual foram documentados parte de mais de 90 espécies dessas flores que dão nome à unidade de conservação, além de dezenas de indivíduos, entre os quais bromélias, orquídeas, carnívoras e cactos que figuram no Plano de Ação Nacional para Conservação das Cactáceas, uma estratégia para promover a conservação efetiva e reduzir o risco de extinção dessas espécies.

FLAGRANTES
O trabalho de campo, com jornadas diárias de 11 horas, possibilitou, além do registro dessas pequenas flores típicas do Cerrado da região, de pinturas rupestres e de dezenas de aves, como o Beija-Flor-de-Gravata-Verde (Augastes scutatus), uma das duas únicas espécies de aves endêmicas do Cerrado brasileiro que estão restritas aos campos rupestres da Cadeia do Espinhaço, classificada como espécie quase ameaçada globalmente (BirdLife International 2000).

Além disso, registramos anfíbios e mamíferos, como o Tamanduá-Bandeira (Myrmecophaga tridactyla), ameaçado de extinção, também conhecido como Papa-Formigas-Gigante e Urso-Formigueiro-Gigante, com mais de dois metros de comprimento.

Além da beleza cênica, o parque é um laboratório a céu aberto para realização de pesquisas científicas, pois abriga, nos 1.242 quilômetros quadrados, afloramentos rochosos e serras em um complexo mosaico de tipologias vegetais, graças, sobretudo, à a grande concentração de nascentes d’água: são mais de 600, entre as quais as dos rios Jequitinhonha, Jequitaí (afluente do São Francisco) e Curimataí (afluente do rio das Velhas e, portanto, um subafluente do São Francisco).

O parque é formado por matas densas de fundo de vale, campos limpos, sujos, matas de galeria e de encosta, Cerrado típico e vegetações de transição Cerrado-Caatinga. Esse cenário se reveste de importância ainda maior por dividir as Bacias Hidrográficas dos Rios Jequitinhonha e São Francisco, uma das três maiores da América do Sul, que resulta em elevado potencial aquífero, favorecendo a biodiversidade.

Devido à grande heterogeneidade ambiental, o Parque Nacional das Sempre-Vivas foi considerado pelo Fundo Mundial da Vida Selvagem (WWF) e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) como um dos centros de diversidade de plantas mais significativos do Brasil em decorrência do alto grau de endemismo.
 
COLETA
Os apanhadores de flores preservam tradição passada entre gerações que remontam às culturas indígena, portuguesa e africana no processo de colonização. Em São João da Chapada, distante dez quilômetros de Diamantina, a população é orientada a promover a correta coleta das flores, a formar condutores para acompanhar a visitação nacional e internacional ao parque, bem como estimular o Turismo de Base Comunitária (TBC), praticado na atualidade por cinco receptivos.

Em frente ao Mercado Municipal de Diamantina, na Praça Barão do Guaicuí, em prédio erguido em 1835, a reportagem de O NORTE acompanhou a rotina de dois vendedores de sempre-vivas. Adriana Borges integra há 16 anos a associação de 29 catadores de flores do povoado de Galheiros, distante 15 km da sede do município.

A Pé-de-Ouro, segundo ela, “colhida nos campos de areais e vendida a R$ 5 o cacho, é a que tem maior procura”. Dona Adriana destaca que algumas sempre-vivas “permanecem bonitas e sem perder a coloração por muito tempo”. Ela conta que as flores são muito utilizadas em arranjos desidratados, vendidos para os turistas a R$ 20.