Em menos de uma semana, duas crianças morreram em cidades do Norte de Minas após serem picadas por escorpião. Uma terceira, um recém-nascido, segue internada em estado grave em Montes Claros. Apesar de os ataques serem considerados mais comuns em períodos quentes, o mês de maio – que já apresenta temperaturas mais amenas – bateu recorde de atendimentos a esses casos no Hospital Universitário Clemente de Faria (HU).

Foram 207 ocorrências em maio contra 187 em fevereiro – mês com segundo maior número de atendimentos a vítimas de picadas de escorpião na unidade de saúde que é referência no Norte de Minas para esse tipo de socorro.

Na última quarta-feira, um menino de 10 anos morreu na Santa Casa de Montes Claros após ser picado pelo animal peçonhento na zona rural de Patis. No domingo, a vítima foi um menino de 3 anos, em Monte Azul. Ele pisou no escorpião enquanto brincava e, apesar de estar usando chinelos, foi atingido no pé direito.

Ambas chegaram a ser socorridas e atendidas em hospitais de Montes Claros e Monte Azul, mas tiveram parada cardiorrespiratória e não resistiram.

O pediatra Carlos Lopo, do Hospital Universitário Clemente de Faria, alerta que o contato acidental ocorre principalmente dentro das casas e os primeiros cuidados após o acidente são determinantes para a redução no número de óbitos.

“O alerta à população é importante devido à característica previsível destes envenenamentos, principalmente no período de calor e umidade e de isolamento social”, afirma o pediatra.

De acordo com o HUCF, em 2019, foram feitos 6.333 atendimentos de pessoas atacadas por animais peçonhentos, com quatro mortes. Em 2020, o número foi um pouco menor, com 6.084 atendimentos e novamente quatro óbitos. Do total de ocorrências nos dois anos, 44,49% (5.587) correspondem a ataques de escorpiões – média de 232 por mês. 

Já o Samu registrou 283 em 2019 na Macrorregião Norte de Minas. Em 2020 esse número caiu para 295 atendimentos e, até maio de 2021, já foram contabilizados 105 atendimentos. Em Montes Claros foram 41 atendimentos em 2019, 47 em 2020 e 16 até maio deste ano.

PERIGO
Há cerca de um mês, a advogada Wannessa Aquino foi surpreendida com um visitante indesejado no jardim de casa enquanto molhava as plantas. Moradora de um condomínio em área nobre de Montes Claros, ela sentiu ter pisado em algo e, mesmo usando meias, a sola do pé ficou vermelha e endureceu. Olhou para o chão e avistou um escorpião amarelo, o tipo considerado mais perigoso.

“A perna adormeceu até o joelho. Liguei para o Corpo de Bombeiros, que me deu as primeiras orientações e indicou que eu ligasse no Samu. Quando entrei em contato, eles pediram que eu fosse ao Hospital Universitário, mas eu fiquei com medo por causa da Covid-19. Como não apresentei os sintomas que eles questionaram, preferi esperar e ir só em último caso. Eu assumi o risco. Fiquei em observação uns dois ou três dias”, relata Wannessa, que a partir daí redobrou os cuidados.

“Depois disso comprei galochas para todos. Solicitamos ao pessoal que tem lotes vagos para capiná-los e aqui no condomínio está havendo uma conscientização com as crianças para que elas possam reconhecer um escorpião”, diz.