O novo coronavírus foi descoberto em 31 de dezembro de 2019 na China, registrou o primeiro caso no Brasil em 26 de fevereiro e, em 1º de abril, chegou à primeira aldeia do país – a vítima é uma jovem de 20 anos da etnia Kocana, no Amazonas.

No final de dezembro de 2020, o Ministério da Saúde já contabilizava 501 óbitos de indígenas, de 36.124 casos confirmados da doença, em 161 comunidades.

Para tentar conter as contaminações, em meados de março de 2020, o governo federal elaborou o Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus em Povos Indígenas. O documento traz recomendações da equipe técnica da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), orientando como deve ser o atendimento aos indígenas com sintomas relacionados à doença.

Em Minas Gerais, a Prefeitura de São João das Missões, que abriga o maior grupo étnico do Estado, notificou o primeiro caso de coronavírus em indígena no dia 11 de maio.

Dos 13 mil habitantes do município, a estimativa é a de que mais de 8 mil sejam indígenas da etnia Xakriabá, inclusive o prefeito José Nunes. 

Por decisão do cacique e lideranças, a nação indígena fechou os nove acessos ao território e suspendeu todas as visitas às 34 aldeias. Dessa forma, com monitoramento presencial constante, tem conseguido controlar a disseminação do coronavírus no território de 54 mil hectares. 

Passados oito meses, o Povo Xakriabá vê o resultado de uma série de medidas adotadas para enfrentar a pandemia. Das 34 aldeias, 19 não registraram nenhum caso. As outras 15 somam 68 casos positivos. E a nação indígena ostenta o fato de nenhum integrante ter perdido a vida por causa da Covid-19.

ESFORÇO COLETIVO
A blindagem do território foi fundamental para proteger a comunidade. Mas teve grande importância o fato de que os cuidados foram adotados por todos.

“Desde o início da pandemia seguimos as orientações das autoridades e lideranças para evitar a contaminação pelo coronavírus. E uma das primeiras iniciativas foi o uso de máscaras e o bloqueio de todos os acessos às aldeias”, conta Ney Leite Xakriabá, um dos principais artesãos da Aldeia Barreiro Preto.

Segundo ele, um grupo de pessoas ia se revezando, de modo que só entravam e saíam pessoas do território. “Medida possível graças ao esforço coletivo”. 

Além disso, o artesão ceramista explica que foi feita uma parceria com a UFMG e com o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, em Januária, para acompanhamento do deslocamento dos índios. “Tínhamos informações acerca de quais cidades estávamos recebendo mais índios, saindo ou retornando às aldeias. Fizemos bom uso, tanto é verdade que não tivemos nenhuma morte, graças a Deus”.

“A exceção foi dada a comerciantes que tinham uma carta de autorização, o que durou até o final de dezembro, porque é muito difícil ocupar esses espaços dia e noite. Mas acredito que as medidas contribuíram bastante, porque preenchíamos uma planilha para saber quantas pessoas estavam saindo, se era a trabalho, a passeio ou fazer compras”, explica.

Ney afirma que foi um período bem difícil, porque limitou bastante as viagens e até mesmo os contatos dentro do território, principalmente com as pessoas mais velhas de outras aldeias.

Professora indígena, Célia Xakriabá, com doutorado em Antropologia pela Universidade Estadual de Minas Gerais, diz que “o vírus é um acelerador das nossas preocupações e necessidades, agora e pós-pandemia, porque somos um povo de costumes coletivos”.