Na última década, mais de 40 mil casos de HIV foram registrados em Minas Gerais. O fato chama atenção pois desde 2010 não há redução nos registros. Somente neste ano já foram notificados 3.516 casos da doença no Estado, sendo a maioria em jovens entre 20 e 34 anos. As notificações apontam para 2.737 registros em homens e 777 em mulheres.

O mesmo efeito é registrado no Norte de Minas. De acordo com o Núcleo de Vigilância Epidemiológica em Ambiente Hospitalar (Nuveh), vinculado ao Hospital Universitário Clemente de Faria (HUCF), referência nesse tipo de atendimento na região, em 2018 havia 125 pessoas com HIV/Aids sendo assistidas na unidade de saúde. Destes, 16 eram crianças e 23, gestantes. Foram registrados 11 óbitos.

Neste ano, até o final de outubro, foram registrados e atendidos 88 casos: 13 eram de crianças expostas ao HIV, 13 eram gestantes HIV+ e outras 62 pessoas com HIV/Aids. Também foram contabilizados nove óbitos.

As principais formas de transmissão do HIV/Aids é via relação sexual, sem o uso de preservativo. De acordo com o Grupo de Apoio à Prevenção e aos Portadores de Aids em Montes Claros (Grappa), apenas nos últimos cinco meses, 15 pessoas procuraram a instituição para receber auxílio. 

No Grappa é possível fazer acompanhamento e atendimento psicológico, além de conscientização. A presidente Maurina Carvalho afirma que, sem apoio público, a instituição tem tido dificuldade para manter campanhas, mas, mesmo assim, realiza ações durante todo o ano. 

“Hoje, o acesso à informação é fácil, o acesso ao preservativo também é, seja gratuitamente no Grappa ou nos postos de saúde. Mas entendo que as campanhas estão fortes apenas em dezembro e no Carnaval. E a doença, por não agredir tanto quanto há 20 anos, vem caindo no esquecimento”, alerta.
 
PRECONCEITO
Frequentador do Grappa, M.S.C, de 38 anos, conta que descobriu ser portador do HIV há sete anos, após doar sangue e ser notificado pelo Hemominas. Afirma ainda que chegou a perder o emprego por discriminação, contrair doenças como hanseníase, mas que o que mais o afeta é o olhar do outro. 

“Para morrer, basta estar vivo, mas o que mais mata é o preconceito. O que mais dói é a discriminação, até mesmo familiar. E só sente na pele quem tem o vírus”, desabafa.
 
DEZEMBRO VERMELHO 
No último domingo (1) foi celebrado o Dia Mundial de Combate à Aids, síndrome desencadeada pelo vírus e que afeta o sistema imunológico. Ações ocorrem em todo o mundo durante o mês, denominado Dezembro Vermelho, em uma mobilização de prevenção, assistência, proteção e promoção dos direitos das pessoas infectadas com o vírus HIV/Aids e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Nesta quarta-feira (4), o Grappa realiza a “Ronda Noturna”, passando por bares, vias movimentadas e prostíbulos para conscientizar as pessoas sobre a doença. Até o fim do mês, palestras também serão realizadas em empresas e instituições de ensino.
*Com Agência Minas e Hospital Universitário 

Preservativo ignorado
Apenas em 2018, Minas registrou 5.229 novos casos de HIV, média de 14 por dia e um crescimento de quase 100% em relação a 2008, quando o Estado contabilizava 2.680 portadores do vírus. Segundo a coordenadora de IST/Aids e Hepatites Virais de Minas Gerais, Mayara Almeida, a ampliação do diagnóstico contribuiu, mas “a diminuição do uso dos preservativos também”. “É importante reforçar a educação sexual nas famílias, além das escolas. Os indivíduos, de forma geral, precisam lembrar que o uso da camisinha é a forma mais eficaz, acessível e barata de se evitar a doença”.

Nos últimos cinco anos, o aumento de casos se intensificou justamente por causa de uma certa tranquilidade das novas gerações em relação à transmissão da doença, afirma a coordenadora de Saúde Sexual da Secretaria Municipal de Saúde de BH, Maria Gorete Nogueira.